<?xml version="1.0" encoding="UTF-8"?><!-- generator="wordpress.com" -->
<rss version="2.0"
	xmlns:content="http://purl.org/rss/1.0/modules/content/"
	xmlns:wfw="http://wellformedweb.org/CommentAPI/"
	xmlns:dc="http://purl.org/dc/elements/1.1/"
	>

<channel>
	<title>lobo-antunes &amp;laquo; WordPress.com Tag Feed</title>
	<link>http://wordpress.com/tag/lobo-antunes/</link>
	<description>Feed of posts on WordPress.com tagged "lobo-antunes"</description>
	<pubDate>Sat, 26 Jul 2008 11:37:41 +0000</pubDate>

	<generator>http://wordpress.com/tags/</generator>
	<language>en</language>

<item>
<title><![CDATA[Lobo Antunes em entrevista ]]></title>
<link>http://worldroom.wordpress.com/?p=266</link>
<pubDate>Wed, 23 Jul 2008 16:15:16 +0000</pubDate>
<dc:creator>João Monge Ferreira</dc:creator>
<guid>http://worldroom.wordpress.com/?p=266</guid>
<description><![CDATA[É um livro mais curto, com um registo mais rápido que os anteriores. Deixou de gostar daquelas lon]]></description>
<content:encoded><![CDATA[<p><strong>É um livro mais curto, com um registo mais rápido que os anteriores. Deixou de gostar daquelas longas «sinfonias»?</strong><br />
Não tem nada a ver porque, como leitor, continuo a gostar de romances grandes. A questão é que, a partir de agora, os meus livros vão sendo sempre cada vez mais curtos. Não sei explicar porquê - o livro acaba por ter a dimensão que ele próprio exige, é ele quem comanda.</p>
<p><strong>Conhece bairros periféricos de Lisboa como o que retrata?</strong><br />
O livro refere-se a um bairro em concreto, embora eu nunca lá tenha estado. Sempre me impressionou o facto de aqueles miúdos não terem raízes de espécie alguma. Não são portugueses, não são africanos, não são nada. Brincam com balas em vez de brincarem com bolas. E no entanto há neles uma sede de ternura, um desejo de amor absolutamente inextinguível. A morte e a vida não têm, para eles, qualquer significado ou, pelo menos, têm um significado muito diferente do que para nós. Na minha ideia, <em>O Meu Nome É Legião</em> era por isso um livro de amor. De amor por uma geração, por uma classe social sozinha e abandonada, por um grupo de pessoas desesperadamente à procura de uma razão de existir.</p>
<p><strong>Revê-se naqueles garotos?</strong><br />
Quando começo a escrever um livro, não tenho qualquer plano. Aqueles garotos, aqueles polícias e, no fundo, todas aquelas vozes vão-se encadeando de tal modo que sou o primeiro a ficar espantado. Não posso, no entanto, dizer que me revejo neles porque, naquele momento, éramos só uma e a mesma coisa. Uma espécie de relação simbiótica.</p>
<p><strong>Eles estão excluídos deste mundo?</strong><br />
Estão de tal maneira abandonados que matar pessoas é a única maneira que têm de pedir colo. Não sei, porém, o que se passa na realidade, uma palavra idiota porque a realidade é uma coisa que não existe. Todas aquelas pessoas têm, para mim, uma densidade muito profunda.</p>
<p><strong>E, nessa medida, o livro também é uma realidade?</strong><br />
É a única realidade que existe. Não se trata de viver noutro planeta, mas a verdade é que, quando estou a escrever, a minha vida muda por completo. Encontro uma razão, um motivo e uma direcção. E é óbvio que dou muito mais importância aos livros do que às crónicas, que são apenas...</p>
<p><strong>...uma questão alimentar, como costumava explicar.</strong><br />
Não, já não. São antes a possibilidade de poder fazer uma espécie de itinerário paralelo. Como quando, em miúdo, andava com o meu avô em estradas paralelas à via férrea, ficando com a sensação de viajar, ao mesmo tempo, no automóvel e no comboio.</p>
<p><strong>Diz que não conhece aquele bairro...</strong><br />
Não conheço aquela realidade do ponto de vista jornalístico.</p>
<p><strong>Mas sempre gostou de subúrbios.</strong><br />
Aquilo não é sequer um subúrbio. Para mim, o subúrbio é Benfica ou o Cacém. Aquilo é muito pior do que isso. Aquilo é o inferno. Aquelas pessoas vivem num inferno onde eu nunca entrei.</p>
<p><strong>Foi ganhando carinho por aquelas personagens?</strong><br />
Não sei se os leitores entenderão que o livro está a transbordar de amor. Custou-me muito que aquelas personagens morressem. Repare que até o professor não é muito diferente dos garotos - todos estão terrivelmente desamparados. Sempre me comoveu ver o desamparo em que as pessoas vivem. Acho que esta dimensão nunca foi suficientemente notada nos meus livros. Vivemos num certo desamparo, numa certa desprotecção.</p>
<p><strong>Mas essa não é uma característica apenas do último livro.</strong><br />
Obviamente que não. Lembro-me de começar a escrever <em>Explicação aos Pássaros</em> na Alemanha, em casa da tradutora que tinha na altura. Convencido de que estava a fazer um romance completamente diferente, mostrei-lhe as primeiras linhas e ela disse-me que não via ali nada de diferente: «És tu.» Não consigo fugir disto - há sempre é um «outro eu» que escreve. Como quando aquele admirador da Sarah Bernhardt a encontra na rua e pergunta: «É a dona Sarah Bernhardt?» E ela responde: «Serei esta noite.»</p>
<p><strong>Ficou comovido com o acolhimento que teve agora em Berlim, no Festival Internacional de Literatura? </strong><br />
Comovido é uma palavra exagerada. Agora, a qualquer lado onde vá, é sempre assim. Torna-se um pouco incómodo porque estive o dia inteiro a dar entrevistas no hotel e, quando saí, havia uma série de pessoas cá fora. Queriam um autógrafo não num livro, mas num pedacinho de papel. Como se eu fosse o Enrique Iglesias.</p>
<p><strong>E com o Prémio Camões, que recebeu no princípio deste ano, ficou comovido?</strong><br />
Agora, de três em três meses, recebo um prémio. Antes, tinha vindo o Prémio Ibero-Americano, depois veio o Camões e, há dias, chegou o Neruda. É muito agradável recebê-los, mas um prémio nada tem a ver com a literatura na medida em que não melhora nem piora os livros. Um prémio é só um prémio.</p>
<p><strong>Faz sentido voltar a falar no Nobel?</strong><br />
Nem penso nisso. Agora menos que nunca.</p>
<p><strong>Porquê?</strong><br />
Porque há coisas muito mais importantes. Tenho a certeza de que os meus livros são muito mais importantes do que qualquer Nobel que me possam dar. Mas não me queria alongar sobre esse assunto, porque me parece que se dá excessiva importância a um prémio literário. Tolstoi e Conrad nunca o tiveram. E eles é que são os meus colegas.</p>
<p><strong>Sente-se bem na companhia deles?</strong><br />
Não estou nada mal [sorrisos].</p>
<p><strong>Até se ri...</strong><br />
Sabe, este foi um ano muito duro para mim. Para além de ter recebido constantes lições de dignidade e de coragem por parte de pessoas anónimas, aprendi a ter ainda mais respeito e admiração pelos portugueses. Compreendi porque é que fomos nós a ir naqueles barquinhos de 14 metros sem quilha, porque é que atravessámos o Atlântico, porque é que fizemos o que fizemos. E fiquei muito orgulhoso quando percebi que o povo ainda é o mesmo. Fez-me lembrar aqueles versos de Sophia: «Esta gente cujo rosto/ Às vezes luminoso/ E outras vezes tosco/ Ora me lembra escravos/ Ora me lembra reis». Foi muito bom ter tido essa experiência.</p>
<p><strong>Muito bom?</strong><br />
Aprendi a admirar as pessoas do meu País. E a respeitá-las ainda mais. E a amá-las ainda mais. E a gostar cada vez mais delas. A partir daí, tudo o resto se tornou relativo. Houve coisas que deixaram de ser importantes. E normalmente é quando elas deixam de ser importantes que vêm ter connosco... O que me interessa, neste momento, é poder ter tempo para escrever, viver o suficiente para conseguir acabar o meu trabalho sem decepcionar os que acreditam em mim. Surpreende-me todo este reconhecimento internacional porque, no fundo, só escrevo livros, o que não me dá um mérito por aí além... É apenas trabalho.</p>
<p><strong>E muito trabalho...</strong><br />
Ser pedreiro, médico ou outra coisa qualquer também dá muito trabalho. E ser doente, ser doente dá muito trabalho.</p>
<p><strong>Porque é que decidiu escrever aquela crónica da VISÃO, intitulada <em>Crónica do Hospital</em>, onde revelava que tinha um cancro?</strong><br />
Como já havia muitos boatos contraditórios, resolvi aclarar as coisas e dizer a verdade. A crónica foi escrita mesmo no hospital. Mal conseguia escrever, não tinha forças para nada. O que posso dizer é que eu e todos os outros doentes só recebemos atenções. Dos médicos e dos enfermeiros, mas também das pessoas mais modestas que lá trabalham. Se dizem que tratam mal os doentes nos hospitais, a minha experiência foi justamente a contrária. Sempre vi os doentes serem tratados com a maior dignidade. Estou muito grato às pessoas que cuidaram de mim e que tiveram comigo a maior delicadeza.</p>
<p><strong><em>O Meu Nome É Legião</em> é, aliás, dedicado a Henrique Bicha Castelo, que o operou.</strong><br />
Para ele, do ponto de vista emocional, não deve ter sido nada fácil. Porque o Henrique não foi apenas o meu médico, é meu amigo. Para além de ser um cirurgião de renome internacional, é um homem de uma qualidade humana, de uma capacidade de amor, de uma generosidade e de uma ternura absolutamente excepcionais.</p>
<p><strong>Durante todo esse período, lembrou-se alguma vez do António Lobo Antunes médico?</strong><br />
Tudo isto me fez ter saudades da Medicina. Pela primeira vez, tive saudades da Medicina. E, nos últimos tempos, tenho tido saudades. Agora já é tarde porque a escolha foi feita há muito tempo. Mas, se pudesse voltar atrás, talvez tentasse manter alguma relação com a Medicina.</p>
<p><strong>Enquanto não pôde viver da escrita, viu a Medicina como uma forma de ganhar a vida.</strong><br />
Eu até gostava de ser médico. O meu pai era médico, cresci no meio dos hospitais, mas estar internado é outra coisa muito diferente. Não há nada de mais horrível do que uma noite passada num hospital.</p>
<p><strong>As noites passadas num hospital duram mais?</strong><br />
São infinitas. E é aí que aparece o desamparo. Não estou a falar de mim, estou a falar de uma maneira geral. É óbvio que senti tudo isto. Sofri muito e, ao mesmo tempo, toda esta experiência também me enriqueceu. Sai-se disto com mais amor pela vida e com a sensação de que é uma honra estar-se vivo.</p>
<p><strong>Sai-se mais sereno?</strong><br />
Não lhe sei responder, porque nunca fui uma pessoa de grandes exaltações. É claro que tomei consciência da minha finitude, porque todos vivemos em função de eternidades. Uma pessoa de 20 anos pensa que tem à sua frente 50 anos e, para ela, esses 50 anos não vão passar nunca. A minha mãe, por exemplo, vive em função de eternidades de seis meses. E, na prática, esses seis meses são tão compridos como os 50 anos do jovem de 20 anos. Quando a Maria Antonieta pedia ao carrasco «só mais um minuto, senhor carrasco», para ela aquele minuto era eterno.</p>
<p><strong>Virginia Woolf dizia que, a partir de certa idade, os dias são uma eternidade, mas os anos passam a correr.</strong><br />
E Churchill dizia que os anos passam num instante, o que custa a passar são os minutos. Mas quando os escritores querem parecer inteligentes, eu desconfio sempre. A atitude de sedução sempre me irritou e irrita-me cada vez mais. É isso e, sobretudo, a amargura. Há para aí um cronista num jornal diário que deve ser a pessoa mais infeliz do mundo. Destila tanto fel... Meu Deus, como se pode ser assim?</p>
<p><strong>Está a falar de Vasco Pulido Valente?</strong><br />
É uma dedução sua. Não o conheço, mas o que ele escreve faz-me imensa impressão. E pena. Não me irrita, não me enerva, não me exalta, não me comove. Faz-me pena. Não gosto de pessoas amargas porque são mal agradecidas. A ingratidão é o pior sentimento que pode existir.</p>
<p><strong>Sempre prezou a sua privacidade. Hesitou ao escrever aquela crónica na qual se expôs como nunca antes o havia feito?</strong><br />
Para quem souber ler, exponho-me muito mais nos livros. Em <em>O Meu Nome É Legião</em>, por exemplo, aqueles garotos vieram de dentro de mim, são parte de mim. Quando me fala em serenidade, é evidente que estou muito mais sereno, muito mais seguro do valor do meu trabalho.</p>
<p><strong>Depois da operação, foi difícil voltar a escrever?</strong><br />
Muito difícil. Não era capaz, cansava-me. A seguir à operação, nem sequer escrevia. Estava sentado numa cadeira, sem ler, sem fazer nada, a olhar para a parede. Estive quase dois meses assim. Não tinha nada dentro.</p>
<p><strong>Tinha um romance começado?</strong><br />
Sim, tinha começado a escrevê-lo seis ou sete meses antes. E, como nunca tinha feito uma interrupção, só me perguntava: será que sou capaz de retomar o livro? Depois, devagar, comecei a aproximar-me dele, sem lhe tocar, sem lhe tocar mesmo. Tinha ficado a meio de um capítulo, li o último parágrafo e - é curioso - o livro continuou a sair. É muito estranho porque eu costumo demorar mais de um ano a fazer a primeira versão e, quando chego ao fim, já mal me lembro do princípio. Releio e tudo aquilo faz sentido, tudo aquilo está certo. É uma espécie de trabalho interior que nada tem a ver comigo. Ou melhor: tem a ver comigo, eu não sei é de que parte de dentro de mim é que aquilo vem. Acho que agora estou a escrever como nunca escrevi. Falam muito no <em>Manual dos Inquisidores</em>, mas julgo que foi a partir de <em>Ontem Não te Vi em Babilónia</em> que a escrita começou a ganhar uma densidade, uma espessura, uma força que antes não tinha. Não me importa se me lêem porque escrevo para a eternidade? Claro que me importa, claro que quero que me leiam. Há coisas que já não faço.</p>
<p><strong>Como assim?</strong><br />
Já não minto. Já não componho o perfil. Estou aqui diante de vós, nu e desfigurado. Porque a nudez desfigura sempre. Agora, jogo com as cartas abertas. Agora, jogo póquer com as cartas viradas para cima. Agora, já não há nada escondido, está tudo à vista. E ou a mão ganha ou perde. Nos livros, também já não há truques. São livros que não devem nada a ninguém. Não se nota ali a voz de ninguém, não há ali influência de qualquer outro autor. Nada. Zero. É a minha voz inteira. E a conquista da minha própria voz foi talvez o mais importante que me aconteceu. Não há ninguém a atravessar-se no meu caminho. Se não nos medimos com os melhores, não vale a pena medirmo-nos. Atingir as alturas de Tolstoi ou de Horácio é muito difícil, mas é aí que eu quero estar. E, ao mesmo tempo, isto tem-me permitido admirar o trabalho de outras pessoas que não considero grandes escritores...</p>
<p><strong>Mas admira-lhes o quê? O esforço?</strong><br />
Esforço faz lembrar ciclismo, não é? Admiro o esforço e, quando ele é digno, respeito-o. Embora, em Portugal, se publique demasiado. As pessoas não sabem o quanto custa escrever. Escrever é tremendamente difícil. Não precisamos de mais de – vá lá, para ser generoso – 200 ou 300 livros. Continuo a ficar surpreendido com o aluvião de livros, livros completamente supérfluos, que se editam. As pessoas não têm vergonha de ter feito aquilo? Não são escritores, são pessoas que fazem livros. Uma coisa é ser escritor, como Torga (por exemplo) o era. Outra coisa é fazer livros, o que agora toda a gente faz. Fico pasmado quando vejo jornalistas, advogados ou apresentadores de televisão que se apresentam como escritores. Já reparou?</p>
<p><strong>Ao regressar ao livro, sentiu-o como seu?</strong><br />
Claro que sim. Ninguém escreve assim. Não tenho a menor dúvida de que não há, na língua portuguesa, quem me chegue aos calcanhares. E nada disto tem a ver com vaidade porque, como sabe, sou modesto e humilde. A doença trouxe-me isso. Já não estou a fazer tratamentos e só lá mais para o final do ano é que voltarei a fazer exames. Tudo isto dá-me uma grande serenidade, porque olho para as coisas com mais distância. Estive muito perto da morte e palavra de honra que é muito mais fácil do que se imagina. A ideia pode angustiar-nos e apavorar-nos, mas quando se está mesmo ao pé dela é muito mais fácil do que se pensa. Lembre-se do que diz a última frase de <em>Os Thibault</em>, o grande romance de Roger Martin Du Gard: <em>plus simples qu' on y pense</em>, mais simples do que se pensa. E é, de facto, mais simples do que se pensa, menos assustador do que se pensa.</p>
<p><strong>Quando ouve a palavra cancro, é a morte que vê à sua frente?</strong><br />
Por mais que racionalmente pensemos que o cancro se cura, associamo-lo à morte. Pedi sempre para não me mentirem e, por isso, quando muito francamente me dizem que tenho um cancro, o que vejo à minha frente é a morte. Não é ver a morte à minha frente, é vê-la dentro de mim. Já está cá, é uma parte de nós. E é mais fácil do que se pensa, não requer coragem, apenas dignidade e elegância. Perguntava muitas vezes: tenho-me portado de uma maneira digna?</p>
<p><strong>A quem é que perguntava?</strong><br />
Ao médico e a uma ou duas pessoas que faziam o favor de se interessar por mim. Não há nada de mais horrível do que a cobardia. Compreendi a frase de Hemingway, quando quiseram saber o que é que ele achava da morte e a resposta dele foi: «Outra puta.» Porque a morte é sempre uma puta e, a uma puta, não se pode dar confiança. Uma amiga, que é minha médica, disse-me: «Tens que aprender a viver com isto.» Não, não tenho. Não tenho que viver com um filho da puta. Eu não vivo com um cabrão, quero destruí-lo, não quero viver com ele.</p>
<p><strong>Tem que ter pulso firme?</strong><br />
Tem que lutar contra aquilo. O cancro habita-me, está dentro de mim. E queria portar-me com a mesma dignidade com que acho que me portei na guerra. Não sei se ele se importa com a minha atitude ou não, mas, em princípio, é um pesadelo que estará terminado. De qualquer maneira, sei que, mais tarde ou mais cedo, a puta virá. Só espero ter tempo para acabar o meu trabalho.</p>
<p><strong>Na guerra, já tinha visto a morte de perto.</strong><br />
Na guerra, era mais fácil porque era uma qualquer coisa de exterior, podia sempre agarrar numa arma. Em África, tínhamos inimigos (digamos assim) e estávamos armados com morteiros, espingardas e metralhadoras. Eu agora tinha a morte dentro de mim. E é horrível estar grávido da morte. Portanto, o tratamento é como fazer um aborto desse monstro que nos quer destruir. Quando ia às sessões de radioterapia, encontrava pessoas de todas as idades. Lembro-me sobretudo de uma rapariga de 20 anos que usava uma cabeleira postiça. Percebia-se logo que a cabeleira era postiça, mas ela usava-a com tanta dignidade que era como se fosse uma coroa. Uma coroa de rainha. E era, de facto, uma rainha que ali estava.</p>
<p><strong>A doença torna-nos mais doces ou, pelo contrário, mais amargos?</strong><br />
No meu caso, fez com que se acabassem os disfarces, as máscaras, as meias-frases e as meias-tintas. Agora digo o que penso e o que sinto. Estou a falar com as cartas viradas para cima. E é a primeira vez que o faço. Não há nada escondido, não há nada na manga, não há truques nem tentativas de a impressionar e de a comover.</p>
<p><strong>Sente-se mais livre?</strong><br />
Foi muito difícil. Enfim, muito difícil é exagero...</p>
<p><strong>Exagero porquê?</strong><br />
Porque, ao lado, vi pessoas que estavam muito piores que eu. Pessoas sem esperança, à espera da morte. As minhas hipóteses eram grandes e, por isso, às vezes, sinto-me culpado. Mas é verdade que me sinto mais livre, sinto-me muito mais livre. Livre para escrever, livre para viver, livre para amar. No outro dia, com os meus irmãos, disse ao João [o neurocirurgião João Lobo Antunes] que ele tinha escrito um texto muito bonito. E um deles comentou que nós não dizemos essas coisas uns aos outros. Eu agora digo, eu agora digo. E isso foi uma conquista porque, de repente, tornou-se evidente que esta é a única maneira de viver. Claro que tem que haver dignidade, e que não podem existir pieguices, mas acabaram-se as contenções. O meu avô morreu e, ainda hoje, sinto remorsos por não lhe ter dito que gostava muito dele.</p>
<p><strong>Teve medo de perder a mão?</strong><br />
Claro que sim. Sempre senti esse medo e agora senti-o ainda mais. Tinha imenso medo que a operação, para além de me tirar o cancro, me tivesse tirado a capacidade de escrever. Não sei por que bulas uma vez que aquilo estava nos intestinos...</p>
<p><strong>E, depois, foi ganhando confiança?</strong><br />
A pouco e pouco, fui aumentando o número de horas de escrita e, hoje, já estou no meu ritmo normal. Não quer dizer que não possa morrer daqui a dois minutos, mas fisicamente nunca me senti como me sinto. Talvez me tenha dado força o facto de a minha condição de mortal ser agora muito mais patente.</p>
<p><strong>No momento em que lhe dizem, pensa...</strong><br />
Não penso em nada, é uma surpresa infinita. Quando disse que queria ser operado, responderam-me que era preciso ver se havia metástases. Fiz exames e, como não havia, fui operado no dia seguinte. Entrei no hospital a pensar que tinha hemorróidas e já não sai de lá. Foi tudo muito rápido.</p>
<p><strong>Como se o mundo lhe caísse em cima dos ombros?</strong><br />
O mundo nunca cai em cima de ninguém. Naquele momento, só pensei nos livros. O que vai acontecer aos livros? Levei o que andava a escrever para o hospital, mas não tinha forças para trabalhar. Queria fazê-lo, mas não conseguia. E não queria deixar o livro inacabado porque, no meu caso, um livro inacabado é um livro cheio de redundâncias, de inutilidades e toda aquela ganga que se escreve. Preocupava-me que publicassem um livro mau. Talvez por uma qualquer <em>coquetterie</em>, por estar seguro que estou a trabalhar para daqui a 500 anos.</p>
<p><strong>Já cá não estaremos.</strong><br />
Não sei se morremos assim. Não sei se não ficamos cá. Não sei se Camões está morto. Mas isso não tem importância, eu não sou importante, os livros é que são importantes.</p>
<p><strong>Isso não é falsa modéstia?</strong><br />
Não tenho falsa nem verdadeira modéstia. Sou orgulhoso, não sou vaidoso. Para quê estar a jogar consigo? O que é que eu ganho? Acho graça à maneira como, nas entrevistas, as pessoas se tentam compor, se penteiam para arranjar o cabelo, ajeitam a gravata, retocam a maquilhagem. Para quê? Para seduzir? Para tentar que gostem delas? Para fazer boa figura perante os leitores? Tudo isso já me é completamente indiferente. É uma conquista recente, ganha com tudo aquilo por que passei. Estar aqui à sua frente é a única maneira de estar. E é a primeira vez que o faço.</p>
<p><strong>Como sentiu a reacção dos leitores à sua <em>Crónica do Hospital</em>?</strong><br />
Não sabia que havia tanta gente que gostava de mim.</p>
<p><strong>Sentiu-se menos desamparado?</strong><br />
Não, senti que não merecia tanto afecto.</p>
<p><strong>Apercebeu-se de que o seu testemunho valeu mais do que dezenas de campanhas?</strong><br />
Não. Agora, apenas sinto mais admiração por aquilo a que chamam pessoas comuns. Não existem pessoas comuns. Se temos a arte de fazer com que a alma do outro se abra, então, todas as pessoas são incomuns. Há uma riqueza extrema dentro de cada um de nós. É como nos livros. Ou sabemos tocar no mistério das coisas e, neste caso, o livro é bom. Ou não sabemos tocar no mistério das coisas e, pelo contrário, o livro é mau. Se Deus quiser, hei-de escrever mais alguns livros.</p>
<p><strong>Também já não diz que vai escrever apenas mais dois livros.</strong><br />
Não. Dizia isso para negociar com a morte, para não lhe pedir muito. Porque, na altura, ainda a achava uma senhora digna, o que já não acho. E, portanto, se dantes pedia, agora exijo.</p>
<p><strong>Antes pedia para ver se a morte era boa consigo...</strong><br />
Sim, para ver se ela tinha pena de mim. Agora, já não preciso de pena.</p>
<p>Fonte:<a href="http://aeiou.visao.pt/Actualidade/Cultura/Pages/LoboAntunesementrevista.aspx">Visão</a></p>
<p><span class="dataTextoEspeciaisIII"><strong>Sara Belo Luís </strong> <span>28 Set 2007</span></span></p>
]]></content:encoded>
</item>
<item>
<title><![CDATA[A Viagem - 5 incontri sulla letteratura portoghese]]></title>
<link>http://hourloupe.wordpress.com/?p=73</link>
<pubDate>Mon, 24 Mar 2008 15:04:04 +0000</pubDate>
<dc:creator>hourloupe</dc:creator>
<guid>http://hourloupe.wordpress.com/?p=73</guid>
<description><![CDATA[


«A Viagem» è il primo di una serie di eventi dedicati alla letteratura.
Gli incontri, in colla]]></description>
<content:encoded><![CDATA[<div style="text-align:center;"></div>
<p><a href="http://hourloupe.wordpress.com/files/2008/03/a_viagem.jpg"></a></p>
<div style="text-align:center;"><a href="http://hourloupe.wordpress.com/files/2008/03/a_viagem.jpg"><img src="http://hourloupe.wordpress.com/files/2008/03/viagem_thumb.jpg" alt="A viagem" /></a></div>
<p>«A Viagem» è il primo di una serie di eventi dedicati alla letteratura.<br />
Gli incontri, in collaborazione con il Laboratorio di lettura Mnemosine, sono dedicati al tema del viaggio nella letteratura portoghese e avranno luogo ogni venerdì dalle ore 18:00 alle 19:30 presso la nostra sede, in viale Amendola 186.</p>
<p>Per informazioni e iscrizioni potete contattarci via <a href="http://hourloupe.wordpress.com/contatti/">email</a> o chiamare uno di questi numeri:</p>
<p>0187770860<br />
3472623527</p>
<p>PRESENTAZIONE</p>
<p><i>Il vero viaggio di scoperta non consiste nel cercare terre ma nell'avere nuovi occhi.<br />
</i><br />
Marcel Proust</p>
<p><i> …perché il viaggio – nel mondo e sulla carta – è di per sé un continuo preambolo, un preludio a qualcosa che deve sempre ancora venire e sta sempre ancora dietro l'angolo.</i></p>
<p>Claudio Magris</p>
<p>Partiremo all'alba della letteratura portoghese per giungere ai nostri giorni, accompagnati dagli autori più rappresentativi: Gil Vicente, Luís Vaz de Camões, Bernardo Gomes de Brito, Eça de Queirós, José Saramago, António Lobo Antunes, esponendo i nostri sensi, la nostra mente e il nostro cuore al nuovo e al diverso.</p>
]]></content:encoded>
</item>
<item>
<title><![CDATA[António Lobo Antunes - A entrevista]]></title>
<link>http://novojornalismo.wordpress.com/2008/01/09/antonio-lobo-antunes-a-entrevista/</link>
<pubDate>Wed, 09 Jan 2008 18:16:42 +0000</pubDate>
<dc:creator>#nbs#</dc:creator>
<guid>http://novojornalismo.wordpress.com/2008/01/09/antonio-lobo-antunes-a-entrevista/</guid>
<description><![CDATA[Simplesmente fabulosa esta entrevista. Dois Grandes Srs.
O livro,esse, é de uma habitual perfeiçã]]></description>
<content:encoded><![CDATA[<p>Simplesmente fabulosa <a href="http://videos.sapo.pt/hiIvyIJPSTDaOHoFi21Z" target="_blank">esta</a> entrevista. Dois Grandes Srs.</p>
<p>O <a href="http://www.dquixote.pt/Livre/Ficha.aspx?id=1926" target="_blank">livro</a>,esse, é de uma habitual perfeição, a não perder.</p>
<p><i><span>"(...) Quando desceu para terra veio-lhes ao encontro um homem da cidade, possesso de vários demónios, que desde há muito não se vestia nem vivia em casa mas nos túmulos. Ao ver Jesus prostrou-se diante dele, gritando em alta voz: 'Que tens que ver comigo Jesus, filho de Deus altíssimo? Peço-te que não me atormentes!» (...) Jesus perguntou-lhe: 'Qual é o teu nome?' 'O meu nome é Legião'— respondeu. "</span></i></p>
<p align="center"><span>Evangelho de São Lucas</span></p>
]]></content:encoded>
</item>
<item>
<title><![CDATA[A vida depois do cancro]]></title>
<link>http://worldroom.wordpress.com/2007/11/19/a-vida-depois-do-cancro/</link>
<pubDate>Mon, 19 Nov 2007 17:30:04 +0000</pubDate>
<dc:creator>João Monge Ferreira</dc:creator>
<guid>http://worldroom.wordpress.com/2007/11/19/a-vida-depois-do-cancro/</guid>
<description><![CDATA[         Bastou um dia para lhe          mudar a vida. Em Março deste ano, António Lobo Antunes, 6]]></description>
<content:encoded><![CDATA[<p class="MsoNormal" style="text-align:justify;line-height:150%;margin-top:0;margin-bottom:0;">         <font face="Trebuchet MS">Bastou um dia para lhe          mudar a vida. Em Março deste ano, António Lobo Antunes, 65 anos, entrou          no Hospital de Santa Maria com o manuscrito em que trabalhava debaixo do          braço. E dali já não saiu. A notícia, brutal, de que tinha um cancro,          chegaria pouco tempo depois. No mês seguinte, após ter sido operado,          escreveu na VISÃO uma crónica na qual revelou o inferno que estava a          viver. Agora, seis meses passados, o escritor lança <em>O Meu Nome É          Legião</em> e, pela primeira vez, conta o que viu e o que sentiu. Sem as          meias-palavras das «doenças prolongadas» nem os disfarces dos          testemunhos triunfantes. Como ele próprio diz, com as cartas viradas          para cima.</font><span style="font-family:Arial,sans-serif;"><font size="2"></p>
<p></font><strong><font size="2">Ainda tem a sensação de o seu novo livro, <em>O          Meu Nome É Legião</em>, lhe ter sido ditado por um anjo? </font></strong>         </span>
</p>
<p class="MsoNormal" style="text-align:justify;line-height:150%;margin-top:0;margin-bottom:0;">         <span style="font-family:Arial,sans-serif;">         <font color="#000080" size="2">Sim, mas também houve partes de <em>Ontem          Não te Vi em Babilónia</em> que me pareciam ditadas. Quando a mão está          feliz, os livros parecem-me sempre ditados. <em>O Meu Nome É Legião</em>          está pronto há mais de um ano. E, como entretanto já estou a escrever          outro livro, vou esquecendo o anterior. Tento, aliás, esquecê-lo para          evitar fazer uma sequela. </font></span></p>
<p class="MsoNormal" style="text-align:justify;line-height:150%;margin-top:0;margin-bottom:0;">         <span style="font-family:Arial,sans-serif;"><font size="2"><br />
</font><strong><font size="2">Não voltou sequer a olhar para ele? </font></strong>         </span>
</p>
<p class="MsoNormal" style="text-align:justify;line-height:150%;margin-top:0;margin-bottom:0;">         <span style="font-family:Arial,sans-serif;">         <font color="#000080" size="2">Não, apenas o folheei. Corrijo os livros          tantas vezes e, mesmo assim, fico sempre com a sensação que os deveria          ter corrigido ainda mais, que lhes devia ter dado mais uma volta ou          duas. Há sempre um «que», um «mas», um advérbio ou um adjectivo a mais.          Há sempre palavras a mais. </font></span></p>
<p class="MsoNormal" style="text-align:justify;line-height:150%;margin-top:0;margin-bottom:0;">         <span style="font-family:Arial,sans-serif;"><font size="2"><br />
</font><strong><font size="2">É um livro mais curto, com um registo mais          rápido que os anteriores. Deixou de gostar daquelas longas «sinfonias»?</font></strong></span>
</p>
<p class="MsoNormal" style="text-align:justify;line-height:150%;margin-top:0;margin-bottom:0;">         <span style="font-family:Arial,sans-serif;">         <font color="#000080" size="2">Não tem nada a ver porque, como leitor,          continuo a gostar de romances grandes. A questão é que, a partir de          agora, os meus livros vão sendo sempre cada vez mais curtos. Não sei          explicar porquê - o livro acaba por ter a dimensão que ele próprio          exige, é ele quem comanda. </font></span></p>
<p class="MsoNormal" style="text-align:justify;line-height:150%;margin-top:0;margin-bottom:0;">         <span style="font-family:Arial,sans-serif;"><font size="2"><br />
</font><strong><font size="2">Conhece bairros periféricos de Lisboa como o          que retrata?</font></strong></span>
</p>
<p class="MsoNormal" style="text-align:justify;line-height:150%;margin-top:0;margin-bottom:0;">         <span style="font-family:Arial,sans-serif;">         <font color="#000080" size="2">O livro refere-se a um bairro em          concreto, embora eu nunca lá tenha estado. Sempre me impressionou o          facto de aqueles miúdos não terem raízes de espécie alguma. Não são          portugueses, não são africanos, não são nada. Brincam com balas em vez          de brincarem com bolas. E no entanto há neles uma sede de ternura, um          desejo de amor absolutamente inextinguível. A morte e a vida não têm,          para eles, qualquer significado ou, pelo menos, têm um significado muito          diferente do que para nós. Na minha ideia, <em>O Meu Nome É Legião</em>          era por isso um livro de amor. De amor por uma geração, por uma classe          social sozinha e abandonada, por um grupo de pessoas desesperadamente à          procura de uma razão de existir. </font></span></p>
<p class="MsoNormal" style="text-align:justify;line-height:150%;margin-top:0;margin-bottom:0;">         <span style="font-family:Arial,sans-serif;"><font size="2"><br />
</font><strong><font size="2">Revê-se naqueles garotos?</font></strong></span>
</p>
<p class="MsoNormal" style="text-align:justify;line-height:150%;margin-top:0;margin-bottom:0;">         <span style="font-family:Arial,sans-serif;">         <font color="#000080" size="2">Quando começo a escrever um livro, não          tenho qualquer plano. Aqueles garotos, aqueles polícias e, no fundo,          todas aquelas vozes vão-se encadeando de tal modo que sou o primeiro a          ficar espantado. Não posso, no entanto, dizer que me revejo neles          porque, naquele momento, éramos só uma e a mesma coisa. Uma espécie de          relação simbiótica. </font></span></p>
<p class="MsoNormal" style="text-align:justify;line-height:150%;margin-top:0;margin-bottom:0;">         <span style="font-family:Arial,sans-serif;"><font size="2"><br />
</font><strong><font size="2">Eles estão excluídos deste mundo?</font></strong></span>
</p>
<p class="MsoNormal" style="text-align:justify;line-height:150%;margin-top:0;margin-bottom:0;">         <span style="font-family:Arial,sans-serif;">         <font color="#000080" size="2">Estão de tal maneira abandonados que          matar pessoas é a única maneira que têm de pedir colo. Não sei, porém, o          que se passa na realidade, uma palavra idiota porque a realidade é uma          coisa que não existe. Todas aquelas pessoas têm, para mim, uma densidade          muito profunda. </font></span></p>
<p class="MsoNormal" style="text-align:justify;line-height:150%;margin-top:0;margin-bottom:0;">         <span style="font-family:Arial,sans-serif;"><font size="2"><br />
</font><strong><font size="2">E, nessa medida, o livro também é uma          realidade?</font></strong></span>
</p>
<p class="MsoNormal" style="text-align:justify;line-height:150%;margin-top:0;margin-bottom:0;">         <span style="font-family:Arial,sans-serif;">         <font color="#000080" size="2">É a única realidade que existe. Não se          trata de viver noutro planeta, mas a verdade é que, quando estou a          escrever, a minha vida muda por completo. Encontro uma razão, um motivo          e uma direcção. E é óbvio que dou muito mais importância aos livros do          que às crónicas, que são apenas...</font></span></p>
<p class="MsoNormal" style="text-align:justify;line-height:150%;margin-top:0;margin-bottom:0;">         <span style="font-family:Arial,sans-serif;"><font size="2"><br />
</font><strong><font size="2">...uma questão alimentar, como costumava          explicar.</font></strong></span>
</p>
<p class="MsoNormal" style="text-align:justify;line-height:150%;margin-top:0;margin-bottom:0;">         <span style="font-family:Arial,sans-serif;">         <font color="#000080" size="2">Não, já não. São antes a possibilidade de          poder fazer uma espécie de itinerário paralelo. Como quando, em miúdo,          andava com o meu avô em estradas paralelas à via férrea, ficando com a          sensação de viajar, ao mesmo tempo, no automóvel e no comboio.</font></span></p>
<p class="MsoNormal" style="text-align:justify;line-height:150%;margin-top:0;margin-bottom:0;">         <span style="font-family:Arial,sans-serif;"><font size="2"><br />
<strong>Diz que não conhece aquele bairro...</strong> </font></span>
</p>
<p class="MsoNormal" style="text-align:justify;line-height:150%;margin-top:0;margin-bottom:0;">         <span style="font-family:Arial,sans-serif;">         <font color="#000080" size="2">Não conheço aquela realidade do ponto de          vista jornalístico.</font></span></p>
<p class="MsoNormal" style="text-align:justify;line-height:150%;margin-top:0;margin-bottom:0;">         <span style="font-family:Arial,sans-serif;"><font size="2"><br />
</font><strong><font size="2">Mas sempre gostou de subúrbios.</font></strong></span>
</p>
<p class="MsoNormal" style="text-align:justify;line-height:150%;margin-top:0;margin-bottom:0;">         <span style="font-family:Arial,sans-serif;">         <font color="#000080" size="2">Aquilo não é sequer um subúrbio. Para          mim, o subúrbio é Benfica ou o Cacém. Aquilo é muito pior do que isso.          Aquilo é o inferno. Aquelas pessoas vivem num inferno onde eu nunca          entrei. </font></span></p>
<p class="MsoNormal" style="text-align:justify;line-height:150%;margin-top:0;margin-bottom:0;">         <span style="font-family:Arial,sans-serif;"><font size="2"><br />
</font><strong><font size="2">Foi ganhando carinho por aquelas personagens?</font></strong></span></p>
<p class="MsoNormal" style="text-align:justify;line-height:150%;margin-top:0;margin-bottom:0;">         <span style="font-family:Arial,sans-serif;"><font size="2">         </font><font color="#000080">Não sei se os leitores entenderão que o livro está          a transbordar de amor. Custou-me muito que aquelas personagens          morressem. Repare que até o professor não é muito diferente dos garotos          - todos estão terrivelmente desamparados. Sempre me comoveu ver o          desamparo em que as pessoas vivem. Acho que esta dimensão nunca foi          suficientemente notada nos meus livros. Vivemos num certo desamparo,          numa certa desprotecção.<br />
</font><br />
<strong><font size="2">Mas essa não é uma característica apenas do          último livro.</font></strong></span>
</p>
<p class="MsoNormal" style="text-align:justify;line-height:150%;margin-top:0;margin-bottom:0;">         <span style="font-family:Arial,sans-serif;">         <font color="#000080" size="2">Obviamente que não. Lembro-me de começar          a escrever <em>Explicação aos Pássaros</em> na Alemanha, em casa da          tradutora que tinha na altura. Convencido de que estava a fazer um          romance completamente diferente, mostrei-lhe as primeiras linhas e ela          disse-me que não via ali nada de diferente: «És tu.» Não consigo fugir          disto - há sempre é um «outro eu» que escreve. Como quando aquele          admirador da Sarah Bernhardt a encontra na rua e pergunta: «É a dona          Sarah Bernhardt?» E ela responde: «Serei esta noite.» </font></span></p>
<p class="MsoNormal" style="text-align:justify;line-height:150%;margin-top:0;margin-bottom:0;">         <span style="font-family:Arial,sans-serif;"><font size="2"><br />
</font><strong><font size="2">Ficou comovido com o acolhimento que teve agora          em Berlim, no Festival Internacional de Literatura? </font></strong></span>
</p>
<p class="MsoNormal" style="text-align:justify;line-height:150%;margin-top:0;margin-bottom:0;">         <span style="font-family:Arial,sans-serif;">         <font color="#000080" size="2">Comovido é uma palavra exagerada. Agora,          a qualquer lado onde vá, é sempre assim. Torna-se um pouco incómodo          porque estive o dia inteiro a dar entrevistas no hotel e, quando saí,          havia uma série de pessoas cá fora. Queriam um autógrafo não num livro,          mas num pedacinho de papel. Como se eu fosse o Enrique Iglesias. </font>         </span></p>
<p class="MsoNormal" style="text-align:justify;line-height:150%;margin-top:0;margin-bottom:0;">         <span style="font-family:Arial,sans-serif;"><font size="2"><br />
<strong>E com o Prémio Camões, que recebeu no princípio deste ano, ficou          comovido?</strong><br />
</font><font color="#000080">Agora, de três em três meses, recebo um prémio.          Antes, tinha vindo o Prémio Ibero-Americano, depois veio o Camões e, há          dias, chegou o Neruda. É muito agradável recebê-los, mas um prémio nada          tem a ver com a literatura na medida em que não melhora nem piora os          livros. Um prémio é só um prémio. </font></span></p>
<p class="MsoNormal" style="text-align:justify;line-height:150%;margin-top:0;margin-bottom:0;">         <span style="font-family:Arial,sans-serif;"><font size="2"><br />
</font><strong><font size="2">Faz sentido voltar a falar no Nobel?</font></strong></span>
</p>
<p class="MsoNormal" style="text-align:justify;line-height:150%;margin-top:0;margin-bottom:0;">         <span style="font-family:Arial,sans-serif;">         <font color="#000080" size="2">Nem penso nisso. Agora menos que nunca.</font></span></p>
<p class="MsoNormal" style="text-align:justify;line-height:150%;margin-top:0;margin-bottom:0;">         <span style="font-family:Arial,sans-serif;"><font size="2"><br />
<strong>Porquê?</strong><br />
</font><font color="#000080">Porque há coisas muito mais importantes. Tenho a          certeza de que os meus livros são muito mais importantes do que qualquer          Nobel que me possam dar. Mas não me queria alongar sobre esse assunto,          porque me parece que se dá excessiva importância a um prémio literário.          Tolstoi e Conrad nunca o tiveram. E eles é que são os meus colegas.</font></span></p>
<p class="MsoNormal" style="text-align:justify;line-height:150%;margin-top:0;margin-bottom:0;">         <span style="font-family:Arial,sans-serif;"><font size="2"><br />
</font><strong><font size="2">Sente-se bem na companhia deles?</font></strong></span>
</p>
<p class="MsoNormal" style="text-align:justify;line-height:150%;margin-top:0;margin-bottom:0;">         <span style="font-family:Arial,sans-serif;"><font size="2">         </font><font color="#000080">Não estou nada mal</font> [sorrisos].</span></p>
<p class="MsoNormal" style="text-align:justify;line-height:150%;margin-top:0;margin-bottom:0;">         <span style="font-family:Arial,sans-serif;"><font size="2"><br />
</font><strong><font size="2">Até se ri...</font></strong></span>
</p>
<p class="MsoNormal" style="text-align:justify;line-height:150%;margin-top:0;margin-bottom:0;">         <span style="font-family:Arial,sans-serif;">         <font color="#000080" size="2">Sabe, este foi um ano muito duro para          mim. Para além de ter recebido constantes lições de dignidade e de          coragem por parte de pessoas anónimas, aprendi a ter ainda mais respeito          e admiração pelos portugueses. Compreendi porque é que fomos nós a ir          naqueles barquinhos de 14 metros sem quilha, porque é que atravessámos o          Atlântico, porque é que fizemos o que fizemos. E fiquei muito orgulhoso          quando percebi que o povo ainda é o mesmo. Fez-me lembrar aqueles versos          de Sophia: «Esta gente cujo rosto/ Às vezes luminoso/ E outras vezes          tosco/ Ora me lembra escravos/ Ora me lembra reis». Foi muito bom ter          tido essa experiência.</font></span></p>
<p class="MsoNormal" style="text-align:justify;line-height:150%;margin-top:0;margin-bottom:0;">         <span style="font-family:Arial,sans-serif;"><font size="2"><br />
</font><strong><font size="2">Muito bom?</font></strong></span>
</p>
<p class="MsoNormal" style="text-align:justify;line-height:150%;margin-top:0;margin-bottom:0;">         <span style="font-family:Arial,sans-serif;">         <font color="#000080" size="2">Aprendi a admirar as pessoas do meu País.          E a respeitá-las ainda mais. E a amá-las ainda mais. E a gostar cada vez          mais delas. A partir daí, tudo o resto se tornou relativo. Houve coisas          que deixaram de ser importantes. E normalmente é quando elas deixam de          ser importantes que vêm ter connosco... O que me interessa, neste          momento, é poder ter tempo para escrever, viver o suficiente para          conseguir acabar o meu trabalho sem decepcionar os que acreditam em mim.          Surpreende-me todo este reconhecimento internacional porque, no fundo,          só escrevo livros, o que não me dá um mérito por aí além... É apenas          trabalho.</font></span></p>
<p class="MsoNormal" style="text-align:justify;line-height:150%;margin-top:0;margin-bottom:0;">         <span style="font-family:Arial,sans-serif;"><font size="2"><br />
</font><strong><font size="2">E muito trabalho...</font></strong></span>
</p>
<p class="MsoNormal" style="text-align:justify;line-height:150%;margin-top:0;margin-bottom:0;">         <span style="font-family:Arial,sans-serif;">         <font color="#000080" size="2">Ser pedreiro, médico ou outra coisa          qualquer também dá muito trabalho. E ser doente, ser doente dá muito          trabalho.</font></span></p>
<p class="MsoNormal" style="text-align:justify;line-height:150%;margin-top:0;margin-bottom:0;">         <span style="font-family:Arial,sans-serif;"><font size="2"><br />
</font><strong><font size="2">Porque é que decidiu escrever aquela crónica da          VISÃO, intitulada <em>Crónica do Hospital</em>, onde revelava que tinha um          cancro?</font></strong></span>
</p>
<p class="MsoNormal" style="text-align:justify;line-height:150%;margin-top:0;margin-bottom:0;">         <span style="font-family:Arial,sans-serif;">         <font color="#000080" size="2">Como já havia muitos boatos          contraditórios, resolvi aclarar as coisas e dizer a verdade. A crónica          foi escrita mesmo no hospital. Mal conseguia escrever, não tinha forças          para nada. O que posso dizer é que eu e todos os outros doentes só          recebemos atenções. Dos médicos e dos enfermeiros, mas também das          pessoas mais modestas que lá trabalham. Se dizem que tratam mal os          doentes nos hospitais, a minha experiência foi justamente a contrária.          Sempre vi os doentes serem tratados com a maior dignidade. Estou muito          grato às pessoas que cuidaram de mim e que tiveram comigo a maior          delicadeza.</font></span></p>
<p class="MsoNormal" style="text-align:justify;line-height:150%;margin-top:0;margin-bottom:0;">         <span style="font-family:Arial,sans-serif;"><font size="2"><br />
</font><strong><font size="2"><em>O Meu Nome É Legião</em> é, aliás, dedicado a          Henrique Bicha Castelo, que o operou.</font></strong></span>
</p>
<p class="MsoNormal" style="text-align:justify;line-height:150%;margin-top:0;margin-bottom:0;">         <span style="font-family:Arial,sans-serif;">         <font color="#000080" size="2">Para ele, do ponto de vista emocional,          não deve ter sido nada fácil. Porque o Henrique não foi apenas o meu          médico, é meu amigo. Para além de ser um cirurgião de renome          internacional, é um homem de uma qualidade humana, de uma capacidade de          amor, de uma generosidade e de uma ternura absolutamente excepcionais.</font></span></p>
<p class="MsoNormal" style="text-align:justify;line-height:150%;margin-top:0;margin-bottom:0;">&#160;</p>
<p class="MsoNormal" style="text-align:justify;line-height:150%;margin-top:0;margin-bottom:0;">         <strong><span style="font-family:Arial,sans-serif;"><font size="2">Durante          todo esse período, lembrou-se alguma vez do António Lobo Antunes médico?</font></span></strong><span style="font-family:Arial,sans-serif;"><font size="2"><br />
</font><font color="#000080">Tudo isto me fez ter saudades da Medicina. Pela          primeira vez, tive saudades da Medicina. E, nos últimos tempos, tenho          tido saudades. Agora já é tarde porque a escolha foi feita há muito          tempo. Mas, se pudesse voltar atrás, talvez tentasse manter alguma          relação com a Medicina. </font></span></p>
<p class="MsoNormal" style="text-align:justify;line-height:150%;margin-top:0;margin-bottom:0;">         <span style="font-family:Arial,sans-serif;"><font size="2"><br />
</font><strong><font size="2">Enquanto não pôde viver da escrita, viu a          Medicina como uma forma de ganhar a vida.</font></strong></span>
</p>
<p class="MsoNormal" style="text-align:justify;line-height:150%;margin-top:0;margin-bottom:0;">         <span style="font-family:Arial,sans-serif;">         <font color="#000080" size="2">Eu até gostava de ser médico. O meu pai          era médico, cresci no meio dos hospitais, mas estar internado é outra          coisa muito diferente. Não há nada de mais horrível do que uma noite          passada num hospital.</font></span></p>
<p class="MsoNormal" style="text-align:justify;line-height:150%;margin-top:0;margin-bottom:0;">         <span style="font-family:Arial,sans-serif;"><font size="2"><br />
</font><strong><font size="2">As noites passadas num hospital duram mais?</font></strong></span>
</p>
<p class="MsoNormal" style="text-align:justify;line-height:150%;margin-top:0;margin-bottom:0;">         <span style="font-family:Arial,sans-serif;">         <font color="#000080" size="2">São infinitas. E é aí que aparece o          desamparo. Não estou a falar de mim, estou a falar de uma maneira geral.          É óbvio que senti tudo isto. Sofri muito e, ao mesmo tempo, toda esta          experiência também me enriqueceu. Sai-se disto com mais amor pela vida e          com a sensação de que é uma honra estar-se vivo.</font></span></p>
<p class="MsoNormal" style="text-align:justify;line-height:150%;margin-top:0;margin-bottom:0;">         <span style="font-family:Arial,sans-serif;"><font size="2"><br />
</font><strong><font size="2">Sai-se mais sereno?</font></strong></span>
</p>
<p class="MsoNormal" style="text-align:justify;line-height:150%;margin-top:0;margin-bottom:0;">         <span style="font-family:Arial,sans-serif;">         <font color="#000080" size="2">Não lhe sei responder, porque nunca fui          uma pessoa de grandes exaltações. É claro que tomei consciência da minha          finitude, porque todos vivemos em função de eternidades. Uma pessoa de          20 anos pensa que tem à sua frente 50 anos e, para ela, esses 50 anos          não vão passar nunca. A minha mãe, por exemplo, vive em função de          eternidades de seis meses. E, na prática, esses seis meses são tão          compridos como os 50 anos do jovem de 20 anos. Quando a Maria Antonieta          pedia ao carrasco «só mais um minuto, senhor carrasco», para ela aquele          minuto era eterno.</font></span></p>
<p class="MsoNormal" style="text-align:justify;line-height:150%;margin-top:0;margin-bottom:0;">         <span style="font-family:Arial,sans-serif;"><font size="2"><br />
</font><strong><font size="2">Virginia Woolf dizia que, a partir de certa          idade, os dias são uma eternidade, mas os anos passam a correr.</font></strong></span>
</p>
<p class="MsoNormal" style="text-align:justify;line-height:150%;margin-top:0;margin-bottom:0;">         <span style="font-family:Arial,sans-serif;">         <font color="#000080" size="2">E Churchill dizia que os anos passam num          instante, o que custa a passar são os minutos. Mas quando os escritores          querem parecer inteligentes, eu desconfio sempre. A atitude de sedução          sempre me irritou e irrita-me cada vez mais. É isso e, sobretudo, a          amargura. Há para aí um cronista num jornal diário que deve ser a pessoa          mais infeliz do mundo. Destila tanto fel... Meu Deus, como se pode ser          assim?</font></span></p>
<p class="MsoNormal" style="text-align:justify;line-height:150%;margin-top:0;margin-bottom:0;">         <span style="font-family:Arial,sans-serif;"><font size="2"><br />
</font><strong><font size="2">Está a falar de Vasco Pulido Valente?</font></strong></span>
</p>
<p class="MsoNormal" style="text-align:justify;line-height:150%;margin-top:0;margin-bottom:0;">         <span style="font-family:Arial,sans-serif;">         <font color="#000080" size="2">É uma dedução sua. Não o conheço, mas o          que ele escreve faz-me imensa impressão. E pena. Não me irrita, não me          enerva, não me exalta, não me comove. Faz-me pena. Não gosto de pessoas          amargas porque são mal agradecidas. A ingratidão é o pior sentimento que          pode existir. </font></span></p>
<p class="MsoNormal" style="text-align:justify;line-height:150%;margin-top:0;margin-bottom:0;">         <span style="font-family:Arial,sans-serif;"><font size="2"><br />
</font><strong><font size="2">Sempre prezou a sua privacidade. Hesitou ao          escrever aquela crónica na qual se expôs como nunca antes o havia feito?</font></strong></span>
</p>
<p class="MsoNormal" style="text-align:justify;line-height:150%;margin-top:0;margin-bottom:0;">         <span style="font-family:Arial,sans-serif;">         <font color="#000080" size="2">Para quem souber ler, exponho-me muito          mais nos livros. Em <em>O Meu Nome É Legião</em>, por exemplo, aqueles          garotos vieram de dentro de mim, são parte de mim. Quando me fala em          serenidade, é evidente que estou muito mais sereno, muito mais seguro do          valor do meu trabalho.</font></span></p>
<p class="MsoNormal" style="text-align:justify;line-height:150%;margin-top:0;margin-bottom:0;">         <span style="font-family:Arial,sans-serif;"><font size="2"><br />
<strong>Depois da operação, foi difícil voltar a escrever?</strong> </font></span>
</p>
<p class="MsoNormal" style="text-align:justify;line-height:150%;margin-top:0;margin-bottom:0;">         <span style="font-family:Arial,sans-serif;">         <font color="#000080" size="2">Muito difícil. Não era capaz, cansava-me.          A seguir à operação, nem sequer escrevia. Estava sentado numa cadeira,          sem ler, sem fazer nada, a olhar para a parede. Estive quase dois meses          assim. Não tinha nada dentro.</font></span></p>
<p class="MsoNormal" style="text-align:justify;line-height:150%;margin-top:0;margin-bottom:0;">         <span style="font-family:Arial,sans-serif;"><font size="2"><br />
</font><strong><font size="2">Tinha um romance começado?</font></strong></span>
</p>
<p class="MsoNormal" style="text-align:justify;line-height:150%;margin-top:0;margin-bottom:0;">         <span style="font-family:Arial,sans-serif;">         <font color="#000080" size="2">Sim, tinha começado a escrevê-lo seis ou          sete meses antes. E, como nunca tinha feito uma interrupção, só me          perguntava: será que sou capaz de retomar o livro? Depois, devagar,          comecei a aproximar-me dele, sem lhe tocar, sem lhe tocar mesmo. Tinha          ficado a meio de um capítulo, li o último parágrafo e - é curioso - o          livro continuou a sair. É muito estranho porque eu costumo demorar mais          de um ano a fazer a primeira versão e, quando chego ao fim, já mal me          lembro do princípio. Releio e tudo aquilo faz sentido, tudo aquilo está          certo. É uma espécie de trabalho interior que nada tem a ver comigo. Ou          melhor: tem a ver comigo, eu não sei é de que parte de dentro de mim é          que aquilo vem. Acho que agora estou a escrever como nunca escrevi.          Falam muito no <em>Manual dos Inquisidores</em>, mas julgo que foi a          partir de <em>Ontem Não te Vi em Babilónia</em> que a escrita começou a          ganhar uma densidade, uma espessura, uma força que antes não tinha. Não          me importa se me lêem porque escrevo para a eternidade? Claro que me          importa, claro que quero que me leiam. Há coisas que já não faço.</font></span></p>
<p class="MsoNormal" style="text-align:justify;line-height:150%;margin-top:0;margin-bottom:0;">         <span style="font-family:Arial,sans-serif;"><font size="2"><br />
</font><strong><font size="2">Como assim?</font></strong></span>
</p>
<p class="MsoNormal" style="text-align:justify;line-height:150%;margin-top:0;margin-bottom:0;">         <span style="font-family:Arial,sans-serif;">         <font color="#000080" size="2">Já não minto. Já não componho o perfil.          Estou aqui diante de vós, nu e desfigurado. Porque a nudez desfigura          sempre. Agora, jogo com as cartas abertas. Agora, jogo póquer com as          cartas viradas para cima. Agora, já não há nada escondido, está tudo à          vista. E ou a mão ganha ou perde. Nos livros, também já não há truques.          São livros que não devem nada a ninguém. Não se nota ali a voz de          ninguém, não há ali influência de qualquer outro autor. Nada. Zero. É a          minha voz inteira. E a conquista da minha própria voz foi talvez o mais          importante que me aconteceu. Não há ninguém a atravessar-se no meu          caminho. Se não nos medimos com os melhores, não vale a pena          medirmo-nos. Atingir as alturas de Tolstoi ou de Horácio é muito          difícil, mas é aí que eu quero estar. E, ao mesmo tempo, isto tem-me          permitido admirar o trabalho de outras pessoas que não considero grandes          escritores...</font></span></p>
<p class="MsoNormal" style="text-align:justify;line-height:150%;margin-top:0;margin-bottom:0;">         <span style="font-family:Arial,sans-serif;"><font size="2"><br />
</font><strong><font size="2">Mas admira-lhes o quê? O esforço?</font></strong></span>
</p>
<p class="MsoNormal" style="text-align:justify;line-height:150%;margin-top:0;margin-bottom:0;">         <span style="font-family:Arial,sans-serif;">         <font color="#000080" size="2">Esforço faz lembrar ciclismo, não é?          Admiro o esforço e, quando ele é digno, respeito-o. Embora, em Portugal,          se publique demasiado. As pessoas não sabem o quanto custa escrever.          Escrever é tremendamente difícil. Não precisamos de mais de – vá lá,          para ser generoso – 200 ou 300 livros. Continuo a ficar surpreendido com          o aluvião de livros, livros completamente supérfluos, que se editam. As          pessoas não têm vergonha de ter feito aquilo? Não são escritores, são          pessoas que fazem livros. Uma coisa é ser escritor, como Torga (por          exemplo) o era. Outra coisa é fazer livros, o que agora toda a gente          faz. Fico pasmado quando vejo jornalistas, advogados ou apresentadores          de televisão que se apresentam como escritores. Já reparou? </font>         </span></p>
<p class="MsoNormal" style="text-align:justify;line-height:150%;margin-top:0;margin-bottom:0;">         <span style="font-family:Arial,sans-serif;"><font size="2"><br />
</font><strong><font size="2">Ao regressar ao livro, sentiu-o como seu?</font></strong></span>
</p>
<p class="MsoNormal" style="text-align:justify;line-height:150%;margin-top:0;margin-bottom:0;">         <span style="font-family:Arial,sans-serif;">         <font color="#000080" size="2">Claro que sim. Ninguém escreve assim. Não          tenho a menor dúvida de que não há, na língua portuguesa, quem me chegue          aos calcanhares. E nada disto tem a ver com vaidade porque, como sabe,          sou modesto e humilde. A doença trouxe-me isso. Já não estou a fazer          tratamentos e só lá mais para o final do ano é que voltarei a fazer          exames. Tudo isto dá-me uma grande serenidade, porque olho para as          coisas com mais distância. Estive muito perto da morte e palavra de          honra que é muito mais fácil do que se imagina. A ideia pode          angustiar-nos e apavorar-nos, mas quando se está mesmo ao pé dela é          muito mais fácil do que se pensa. Lembre-se do que diz a última frase de         <em>Os Thibault</em>, o grande romance de Roger Martin du Gard: <em>plus          simples qu' on y pense</em>, mais simples do que se pensa. E é, de facto,          mais simples do que se pensa, menos assustador do que se pensa.</font></span></p>
<p class="MsoNormal" style="text-align:justify;line-height:150%;margin-top:0;margin-bottom:0;">         <span style="font-family:Arial,sans-serif;"><font size="2"><br />
</font><strong><font size="2">Quando ouve a palavra cancro, é a morte que vê          à sua frente?</font></strong></span>
</p>
<p class="MsoNormal" style="text-align:justify;line-height:150%;margin-top:0;margin-bottom:0;">         <span style="font-family:Arial,sans-serif;">         <font color="#000080" size="2">Por mais que racionalmente pensemos que o          cancro se cura, associamo-lo à morte. Pedi sempre para não me mentirem          e, por isso, quando muito francamente me dizem que tenho um cancro, o          que vejo à minha frente é a morte. Não é ver a morte à minha frente, é          vê-la dentro de mim. Já está cá, é uma parte de nós. E é mais fácil do          que se pensa, não requer coragem, apenas dignidade e elegância.          Perguntava muitas vezes: tenho-me portado de uma maneira digna?</font></span></p>
<p class="MsoNormal" style="text-align:justify;line-height:150%;margin-top:0;margin-bottom:0;">         <span style="font-family:Arial,sans-serif;"><font size="2"><br />
</font><strong><font size="2">A quem é que perguntava?</font></strong></span>
</p>
<p class="MsoNormal" style="text-align:justify;line-height:150%;margin-top:0;margin-bottom:0;">         <span style="font-family:Arial,sans-serif;">         <font color="#000080" size="2">Ao médico e a uma ou duas pessoas que          faziam o favor de se interessar por mim. Não há nada de mais horrível do          que a cobardia. Compreendi a frase de Hemingway, quando quiseram saber o          que é que ele achava da morte e a resposta dele foi: «Outra puta.»          Porque a morte é sempre uma puta e, a uma puta, não se pode dar          confiança. Uma amiga, que é minha médica, disse-me: «Tens que aprender a          viver com isto.» Não, não tenho. Não tenho que viver com um filho da          puta. Eu não vivo com um cabrão, quero destruí-lo, não quero viver com          ele.</font></span></p>
<p class="MsoNormal" style="text-align:justify;line-height:150%;margin-top:0;margin-bottom:0;">         <span style="font-family:Arial,sans-serif;"><font size="2"><br />
</font><strong><font size="2">Tem que ter pulso firme?</font></strong></span>
</p>
<p class="MsoNormal" style="text-align:justify;line-height:150%;margin-top:0;margin-bottom:0;">         <span style="font-family:Arial,sans-serif;">         <font color="#000080" size="2">Tem que lutar contra aquilo. O cancro          habita-me, está dentro de mim. E queria portar-me com a mesma dignidade          com que acho que me portei na guerra. Não sei se ele se importa com a          minha atitude ou não, mas, em princípio, é um pesadelo que estará          terminado. De qualquer maneira, sei que, mais tarde ou mais cedo, a puta          virá. Só espero ter tempo para acabar o meu trabalho.</font></span></p>
<p class="MsoNormal" style="text-align:justify;line-height:150%;margin-top:0;margin-bottom:0;">         <span style="font-family:Arial,sans-serif;"><font size="2"><br />
</font><strong><font size="2">Na guerra, já tinha visto a morte de perto.</font></strong></span>
</p>
<p class="MsoNormal" style="text-align:justify;line-height:150%;margin-top:0;margin-bottom:0;">         <span style="font-family:Arial,sans-serif;">         <font color="#000080" size="2">Na guerra, era mais fácil porque era uma          qualquer coisa de exterior, podia sempre agarrar numa arma. Em África,          tínhamos inimigos (digamos assim) e estávamos armados com morteiros,          espingardas e metralhadoras. Eu agora tinha a morte dentro de mim. E é          horrível estar grávido da morte. Portanto, o tratamento é como fazer um          aborto desse monstro que nos quer destruir. Quando ia às sessões de          radioterapia, encontrava pessoas de todas as idades. Lembro-me sobretudo          de uma rapariga de 20 anos que usava uma cabeleira postiça. Percebia-se          logo que a cabeleira era postiça, mas ela usava-a com tanta dignidade          que era como se fosse uma coroa. Uma coroa de rainha. E era, de facto,          uma rainha que ali estava. </font></span></p>
<p class="MsoNormal" style="text-align:justify;line-height:150%;margin-top:0;margin-bottom:0;">         <span style="font-family:Arial,sans-serif;"><font size="2"><br />
</font><strong><font size="2">A doença torna-nos mais doces ou, pelo          contrário, mais amargos?</font></strong></span>
</p>
<p class="MsoNormal" style="text-align:justify;line-height:150%;margin-top:0;margin-bottom:0;">         <span style="font-family:Arial,sans-serif;">         <font color="#000080" size="2">No meu caso, fez com que se acabassem os          disfarces, as máscaras, as meias-frases e as meias-tintas. Agora digo o          que penso e o que sinto. Estou a falar com as cartas viradas para cima.          E é a primeira vez que o faço. Não há nada escondido, não há nada na          manga, não há truques nem tentativas de a impressionar e de a comover.</font></span></p>
<p class="MsoNormal" style="text-align:justify;line-height:150%;margin-top:0;margin-bottom:0;">         <span style="font-family:Arial,sans-serif;"><font size="2"><br />
</font><strong><font size="2">Sente-se mais livre?</font></strong></span>
</p>
<p class="MsoNormal" style="text-align:justify;line-height:150%;margin-top:0;margin-bottom:0;">         <span style="font-family:Arial,sans-serif;">         <font color="#000080" size="2">Foi muito difícil. Enfim, muito difícil é          exagero...</font></span></p>
<p class="MsoNormal" style="text-align:justify;line-height:150%;margin-top:0;margin-bottom:0;">         <span style="font-family:Arial,sans-serif;"><font size="2"><br />
</font><strong><font size="2">Exagero porquê?</font></strong></span>
</p>
<p class="MsoNormal" style="text-align:justify;line-height:150%;margin-top:0;margin-bottom:0;">         <span style="font-family:Arial,sans-serif;">         <font color="#000080" size="2">Porque, ao lado, vi pessoas que estavam          muito piores que eu. Pessoas sem esperança, à espera da morte. As minhas          hipóteses eram grandes e, por isso, às vezes, sinto-me culpado. Mas é          verdade que me sinto mais livre, sinto-me muito mais livre. Livre para          escrever, livre para viver, livre para amar. No outro dia, com os meus          irmãos, disse ao João [o neurocirurgião João Lobo Antunes] que ele tinha          escrito um texto muito bonito. E um deles comentou que nós não dizemos          essas coisas uns aos outros. Eu agora digo, eu agora digo. E isso foi          uma conquista porque, de repente, tornou-se evidente que esta é a única          maneira de viver. Claro que tem que haver dignidade, e que não podem          existir pieguices, mas acabaram-se as contenções. O meu avô morreu e,          ainda hoje, sinto remorsos por não lhe ter dito que gostava muito dele.         </font></span></p>
<p class="MsoNormal" style="text-align:justify;line-height:150%;margin-top:0;margin-bottom:0;">         <span style="font-family:Arial,sans-serif;"><font size="2"><br />
</font><strong><font size="2">Teve medo de perder a mão?</font></strong></span>
</p>
<p class="MsoNormal" style="text-align:justify;line-height:150%;margin-top:0;margin-bottom:0;">         <span style="font-family:Arial,sans-serif;">         <font color="#000080" size="2">Claro que sim. Sempre senti esse medo e          agora senti-o ainda mais. Tinha imenso medo que a operação, para além de          me tirar o cancro, me tivesse tirado a capacidade de escrever. Não sei          por que bulas uma vez que aquilo estava nos intestinos...</font></span></p>
<p class="MsoNormal" style="text-align:justify;line-height:150%;margin-top:0;margin-bottom:0;">         <span style="font-family:Arial,sans-serif;"><font size="2"><br />
</font><strong><font size="2">E, depois, foi ganhando confiança?</font></strong></span>
</p>
<p class="MsoNormal" style="text-align:justify;line-height:150%;margin-top:0;margin-bottom:0;">         <span style="font-family:Arial,sans-serif;">         <font color="#000080" size="2">A pouco e pouco, fui aumentando o número          de horas de escrita e, hoje, já estou no meu ritmo normal. Não quer          dizer que não possa morrer daqui a dois minutos, mas fisicamente nunca          me senti como me sinto. Talvez me tenha dado força o facto de a minha          condição de mortal ser agora muito mais patente.</font></span></p>
<p class="MsoNormal" style="text-align:justify;line-height:150%;margin-top:0;margin-bottom:0;">         <span style="font-family:Arial,sans-serif;"><font size="2"><br />
</font><strong><font size="2">No momento em que lhe dizem, pensa...</font></strong></span>
</p>
<p class="MsoNormal" style="text-align:justify;line-height:150%;margin-top:0;margin-bottom:0;">         <span style="font-family:Arial,sans-serif;">         <font color="#000080" size="2">Não penso em nada, é uma surpresa          infinita. Quando disse que queria ser operado, responderam-me que era          preciso ver se havia metástases. Fiz exames e, como não havia, fui          operado no dia seguinte. Entrei no hospital a pensar que tinha          hemorróidas e já não sai de lá. Foi tudo muito rápido.</font></span></p>
<p class="MsoNormal" style="text-align:justify;line-height:150%;margin-top:0;margin-bottom:0;">         <span style="font-family:Arial,sans-serif;"><font size="2"><br />
</font><strong><font size="2">Como se o mundo lhe caísse em cima dos ombros?</font></strong></span>
</p>
<p class="MsoNormal" style="text-align:justify;line-height:150%;margin-top:0;margin-bottom:0;">         <span style="font-family:Arial,sans-serif;">         <font color="#000080" size="2">O mundo nunca cai em cima de ninguém.          Naquele momento, só pensei nos livros. O que vai acontecer aos livros?          Levei o que andava a escrever para o hospital, mas não tinha forças para          trabalhar. Queria fazê-lo, mas não conseguia. E não queria deixar o          livro inacabado porque, no meu caso, um livro inacabado é um livro cheio          de redundâncias, de inutilidades e toda aquela ganga que se escreve.          Preocupava-me que publicassem um livro mau. Talvez por uma qualquer <em>         coquetterie</em>, por estar seguro que estou a trabalhar para daqui a 500          anos.</font></span></p>
<p class="MsoNormal" style="text-align:justify;line-height:150%;margin-top:0;margin-bottom:0;">         <span style="font-family:Arial,sans-serif;"><font size="2"><br />
</font><strong><font size="2">Já cá não estaremos.</font></strong></span></p>
<p class="MsoNormal" style="text-align:justify;line-height:150%;margin-top:0;margin-bottom:0;">         <span style="font-family:Arial,sans-serif;"><font size="2">         </font><font color="#000080">Não sei se morremos assim. Não sei se não ficamos          cá. Não sei se Camões está morto. Mas isso não tem importância, eu não          sou importante, os livros é que são importantes.<br />
</font><br />
<strong><font size="2">Isso não é falsa modéstia?</font></strong></span>
</p>
<p class="MsoNormal" style="text-align:justify;line-height:150%;margin-top:0;margin-bottom:0;">         <span style="font-family:Arial,sans-serif;">         <font color="#000080" size="2">Não tenho falsa nem verdadeira modéstia.          Sou orgulhoso, não sou vaidoso. Para quê estar a jogar consigo? O que é          que eu ganho? Acho graça à maneira como, nas entrevistas, as pessoas se          tentam compor, se penteiam para arranjar o cabelo, ajeitam a gravata,          retocam a maquilhagem. Para quê? Para seduzir? Para tentar que gostem          delas? Para fazer boa figura perante os leitores? Tudo isso já me é          completamente indiferente. É uma conquista recente, ganha com tudo          aquilo por que passei. Estar aqui à sua frente é a única maneira de          estar. E é a primeira vez que o faço.</font></span></p>
<p class="MsoNormal" style="text-align:justify;line-height:150%;margin-top:0;margin-bottom:0;">         <span style="font-family:Arial,sans-serif;"><font size="2"><br />
</font><strong><font size="2">Como sentiu a reacção dos leitores à sua <em>         Crónica do Hospital</em>?</font></strong></span>
</p>
<p class="MsoNormal" style="text-align:justify;line-height:150%;margin-top:0;margin-bottom:0;">         <span style="font-family:Arial,sans-serif;">         <font color="#000080" size="2">Não sabia que havia tanta gente que          gostava de mim. </font></span></p>
<p class="MsoNormal" style="text-align:justify;line-height:150%;margin-top:0;margin-bottom:0;">         <span style="font-family:Arial,sans-serif;"><font size="2"><br />
</font><strong><font size="2">Sentiu-se menos desamparado?</font></strong></span>
</p>
<p class="MsoNormal" style="text-align:justify;line-height:150%;margin-top:0;margin-bottom:0;">         <span style="font-family:Arial,sans-serif;">         <font color="#000080" size="2">Não, senti que não merecia tanto afecto.</font></span></p>
<p class="MsoNormal" style="text-align:justify;line-height:150%;margin-top:0;margin-bottom:0;">         <span style="font-family:Arial,sans-serif;"><font size="2"><br />
</font><strong><font size="2">Apercebeu-se de que o seu testemunho valeu mais          do que dezenas de campanhas?</font></strong></span>
</p>
<p class="MsoNormal" style="text-align:justify;line-height:150%;margin-top:0;margin-bottom:0;">         <span style="font-family:Arial,sans-serif;">         <font color="#000080" size="2">Não. Agora, apenas sinto mais admiração          por aquilo a que chamam pessoas comuns. Não existem pessoas comuns. Se          temos a arte de fazer com que a alma do outro se abra, então, todas as          pessoas são incomuns. Há uma riqueza extrema dentro de cada um de nós. É          como nos livros. Ou sabemos tocar no mistério das coisas e, neste caso,          o livro é bom. Ou não sabemos tocar no mistério das coisas e, pelo          contrário, o livro é mau. Se Deus quiser, hei-de escrever mais alguns          livros.</font></span></p>
<p class="MsoNormal" style="text-align:justify;line-height:150%;margin-top:0;margin-bottom:0;">         <span style="font-family:Arial,sans-serif;"><font size="2"><br />
</font><strong><font size="2">Também já não diz que vai escrever apenas mais          dois livros.</font></strong></span>
</p>
<p class="MsoNormal" style="text-align:justify;line-height:150%;margin-top:0;margin-bottom:0;">         <span style="font-family:Arial,sans-serif;">         <font color="#000080" size="2">Não. Dizia isso para negociar com a          morte, para não lhe pedir muito. Porque, na altura, ainda a achava uma          senhora digna, o que já não acho. E, portanto, se dantes pedia, agora          exijo. </font></span></p>
<p class="MsoNormal" style="text-align:justify;line-height:150%;margin-top:0;margin-bottom:0;">         <span style="font-family:Arial,sans-serif;"><font size="2"><br />
</font><strong><font size="2">Antes pedia para ver se a morte era boa          consigo...</font></strong></span>
</p>
<p style="line-height:150%;margin-top:0;margin-bottom:0;" align="justify">         <span style="font-family:Arial,sans-serif;">         <font color="#000080" size="2">Sim, para ver se ela tinha pena de mim.          Agora, já não preciso de pena.</font></span></p>
<p class="MsoNormal" style="line-height:150%;margin-top:0;margin-bottom:0;" align="justify">&#160;</p>
<p class="MsoNormal" style="line-height:150%;margin-top:0;margin-bottom:0;" align="justify">&#160;</p>
<p class="MsoNormal" style="line-height:150%;margin-top:0;margin-bottom:0;" align="justify"> <font face="Arial" size="2">Visão</font></p>
<p class="MsoNormal" style="line-height:150%;margin-top:0;margin-bottom:0;" align="justify"> <font face="Arial" size="2">27.09.2007</font></p>
<p class="MsoNormal" style="line-height:150%;margin-top:0;margin-bottom:0;" align="justify"> <font face="Arial" size="2">(transcrito por Gonçalo Figueiredo Augusto)</font></p>
]]></content:encoded>
</item>
<item>
<title><![CDATA[A Literatura Portuguesa actual]]></title>
<link>http://worldroom.wordpress.com/2007/11/19/a-literatura-portuguesa-actual/</link>
<pubDate>Mon, 19 Nov 2007 17:02:01 +0000</pubDate>
<dc:creator>João Monge Ferreira</dc:creator>
<guid>http://worldroom.wordpress.com/2007/11/19/a-literatura-portuguesa-actual/</guid>
<description><![CDATA[ Lobo  Antunes, convidado pela Secção de Português da Universidade Paul-Valéry,  participou num ]]></description>
<content:encoded><![CDATA[<p class="MsoNormal" style="line-height:150%;margin-top:0;margin-bottom:0;" align="justify"> <span style="font-family:Trebuchet MS;"><font>Lobo  Antunes, convidado pela Secção de Português da Universidade Paul-Valéry,  participou num seminário organizado em Montpellier em 22 de Novembro de 1983. A  Secção de Português agradece vivamente ao escritor por ter querido  voluntariamente prestar-se a este exercício universitário. Este texto reúne o  essencial das declarações feitas por Lobo Antunes nesta ocasião, declarações  recolhidas e coordenadas por <strong>Francis Utéza</strong>.</font></span></p>
<p class="MsoNormal" style="line-height:150%;margin-top:0;margin-bottom:0;" align="justify">&#160;</p>
<p class="MsoNormal" style="text-align:center;line-height:150%;margin-top:0;margin-bottom:0;" align="center">         <strong><span style="font-size:10pt;font-family:Arial,sans-serif;">A          Literatura Portuguesa actual</span></strong></p>
<p class="MsoNormal" style="text-align:justify;line-height:150%;margin-top:0;margin-bottom:0;">         <span style="font-size:10pt;font-family:Arial,sans-serif;"> </span></p>
<p class="MsoNormal" style="text-align:justify;line-height:150%;margin-top:0;margin-bottom:0;">         <span style="font-size:10pt;font-family:Arial,sans-serif;">Na última          Feira Internacional do Livro de Frankfurt, pretendeu-se que não havia          actualmente na Europa senão duas literaturas verdadeiramente criativas:          Na Alemanha Ocidental e em Portugal. O facto é que houve uma autêntica          renovação dois ou três anos após a Revolução de 74, e creio que se pode          afirmar que o século XX literário português começou nesse momento. O          mais importante consistiu numa verdadeira reconciliação entre o público          e os escritores. Anteriormente, devido à censura, nós devíamos fazer uma          literatura “alusiva”, depois de 74 tudo mudou, para nós pelo menos. Além          disso, vários escritores tiveram o mérito e sobretudo a sorte (porque é          também uma questão de sorte) de serem lidos e traduzidos no estrangeiro,          nomeadamente nos EUA. Hoje, estamos a caminho de sermos “descobertos” no          Brasil. Venho ainda agora de uma viagem nesse país com outros escritores          portugueses – José Saramago, José Cardoso Pires, Égito Gonçalves da          geração anterior, Lídia Jorge e Almeida Faria da minha geração.</span></p>
<p class="MsoNormal" style="text-align:justify;line-height:150%;margin-top:0;margin-bottom:0;">         <span style="font-size:10pt;font-family:Arial,sans-serif;">Posso          dizer que se instaurou um novo estado de espírito nos escritores do meu          país. Não há um “movimento literário” do tipo dos movimentos que          juntaram no tempo certos criadores – <em>Orfeu Presença</em>, ou o          neo-realismo por exemplo. Permanecemos profundamente diferentes e essa          diversidade faz a riqueza da nossa literatura. Mas sobretudo tenho a          impressão de que se está a criar uma solidariedade, uma espécie de          sentimento de classe parecido ao que existe já no Brasil. Por exemplo,          tive problemas técnicos com o romance em que estou a trabalhar agora, e          pude discuti-los durante a minha estadia no Brasil com outros          escritores. Hoje ajudamo-nos mutuamente. Era impensável há não muito          tempo. Antes, quando aparecia um tradutor potencial, em poesia          principalmente, o primeiro que lhe metia as mãos em cima, capturava-o e          fechava-o em sua casa até ele deixar o país. É verdade, não estou a          exagerar. Hoje, pensamos que ninguém tira o público a ninguém.          Organizamos conferências colectivas, sessões em comum com os nossos          leitores. Vamos às fábricas, às companhias de seguros. Constatamos uma          grande adesão do público. É um fenómeno novo em Portugal, que contribui,          e bem, para desmistificar o escritor.</span></p>
<p class="MsoNormal" style="text-align:justify;line-height:150%;margin-top:0;margin-bottom:0;">         <span style="font-size:10pt;font-family:Arial,sans-serif;"> </span></p>
<p class="MsoNormal" style="text-align:center;line-height:150%;margin-top:0;margin-bottom:0;" align="center">         <strong><span style="font-size:10pt;font-family:Arial,sans-serif;">A          crítica portuguesa</span></strong></p>
<p class="MsoNormal" style="text-align:justify;line-height:150%;margin-top:0;margin-bottom:0;">         <span style="font-size:10pt;font-family:Arial,sans-serif;"> </span></p>
<p class="MsoNormal" style="text-align:justify;line-height:150%;margin-top:0;margin-bottom:0;">         <span style="font-size:10pt;font-family:Arial,sans-serif;">Os          críticos são pessoas que me fascinam. Pergunto-me muitas vezes qual é o          papel da crítica. Em Portugal, contudo, não desempenha papel nenhum, não          tem qualquer influência no público que se decide a ler um livro pelo          sistema de passa-a-palavra. Nos EUA, pelo contrário, uma boa crítica no         <em>The New York Times</em>, no <em>Herald Tribune</em>, faz vender um livro          de certeza. Alguns chegam a comprar o livro por causa da crítica e não          do livro!</span></p>
<p class="MsoNormal" style="text-align:justify;line-height:150%;margin-top:0;margin-bottom:0;">         <span style="font-size:10pt;font-family:Arial,sans-serif;">Por que é          que a crítica portuguesa não tem efeito no público? Creio que isso se          deve à inexistência de críticos bons. Muitos são demasiado velhos e          fazem sobretudo terapia ocupacional. Pode vir a surgir uma nova geração          de críticos que compreendam melhor o fenómeno literário?</span></p>
<p class="MsoNormal" style="text-align:justify;line-height:150%;margin-top:0;margin-bottom:0;">         <span style="font-size:10pt;font-family:Arial,sans-serif;">Por outro          lado, a crítica portuguesa emite sempre juízos de valor: por exemplo o          Sr. João Gaspar Simões julga-se proprietário de Fernando Pessoa e          portanto se alguém escreve sobre Pessoa isso não vale nada porque não          foi o Sr. Gaspar Simões que escreveu. Em Portugal julga-se sempre, a          crítica é laudativa para os amigos e diz mal dos outros. A crítica não          deve trazer juízos, deve descodificar, fazer perceber como funciona um          livro ou um poema – Borges tem belas páginas sobre isso. Em Portugal, se          quiserem uma boa crítica escrevam um livro obscuro, que ninguém vai ler,          que ninguém vai comprar: dirão bem de vocês, porque não são um potencial          concorrente... No que a mim me diz respeito, os meus primeiros livros          foram ignorados. Hoje, não podem fingir que não sabem que eu existo          porque estou entre os que vendem mais, e como a crítica do <em>The New          York Times</em> e do <em>Herald Tribune</em> disse bem de mim, pouco a          pouco começam a dizer também em Portugal, pelo que agora os meus livros          são maravilhosos. É típico do que Pessoa chamava o “provincianismo          português”. </span></p>
<p class="MsoNormal" style="text-align:justify;line-height:150%;margin-top:0;margin-bottom:0;">         <span style="font-size:10pt;font-family:Arial,sans-serif;"> </span></p>
<p class="MsoNormal" style="text-align:center;line-height:150%;margin-top:0;margin-bottom:0;" align="center">         <strong><span style="font-size:10pt;font-family:Arial,sans-serif;">O          escritor e o seu trabalho</span></strong></p>
<p class="MsoNormal" style="text-align:justify;line-height:150%;margin-top:0;margin-bottom:0;">         <span style="font-size:10pt;font-family:Arial,sans-serif;"> </span></p>
<p class="MsoNormal" style="text-align:justify;line-height:150%;margin-top:0;margin-bottom:0;">         <span style="font-size:10pt;font-family:Arial,sans-serif;">Não          acredito na inspiração. O talento não existe. Há pessoas que trabalham.          Raymond Radiguet dizia não ler senão livros maus porque eles permitem          descobrir a marosca; ao lê-los, aprendemos o mecanismo do texto, mas          quando lemos <em>Guerra e Paz</em> por exemplo, não apreendemos o          trabalho, é como um ovo, não chegamos a entrar. Manuel da Fonseca dizia:          “ser espontâneo dá muito trabalho”. Pelo meu lado, trabalho muito para          tentar dar ao leitor uma impressão de facilidade.</span></p>
<p class="MsoNormal" style="text-align:justify;line-height:150%;margin-top:0;margin-bottom:0;">         <span style="font-size:10pt;font-family:Arial,sans-serif;">Escrevo          durante cinco a seis horas por dia. Faço sempre um plano muito          detalhado, com todas as peripécias; depois escrevo quatro versões          seguindo o plano. Quando termino, dou a dactilografar (escrevo sempre à          mão), revejo o texto dactilografado e decido que versão envio ao editor          e é esquecida. Nunca releio os meus livros porque os reescreveria sem          parar. Ao começar um livro, não tenho senão uma ideia, livrar-me de tudo          o mais depressa possível.</span></p>
<p class="MsoNormal" style="text-align:justify;line-height:150%;margin-top:0;margin-bottom:0;">         <span style="font-size:10pt;font-family:Arial,sans-serif;">O mais          difícil para mim, não são as personagens, é o problema do tempo. No          princípio resolvi-o limitando-me a um dia, a uma noite, depois tornei-me          mais ambicioso... O meu último romance cobre dez anos. Para o cenário,          sou uma espécie de ladrão, observo por exemplo as casas dos meus amigos          e sirvo-me, não sei inventar casas...</span></p>
<p class="MsoNormal" style="text-align:justify;line-height:150%;margin-top:0;margin-bottom:0;">         <span style="font-size:10pt;font-family:Arial,sans-serif;">Quando          escrevo, tenho uma sensação de gravidez. Os homens invejam a gravidez          das mulheres. Freud não falou disso, falou da inveja de pénis das          mulheres, mas não da inveja da gravidez dos homens. Para mim, a única          forma de responder a esta inveja é escrever um livro.</span></p>
<p class="MsoNormal" style="text-align:justify;line-height:150%;margin-top:0;margin-bottom:0;">         <span style="font-size:10pt;font-family:Arial,sans-serif;">Um          romance corresponde sempre a uma época determinada da nossa vida. É por          isso que é estranho para mim falar-vos de um romance como <em>Os Cus de          Judas</em>, que está hoje tão longe de mim, a minha maneira de escrever          está tão mudada...</span></p>
<p class="MsoNormal" style="text-align:justify;line-height:150%;margin-top:0;margin-bottom:0;">         <span style="font-size:10pt;font-family:Arial,sans-serif;">É          curioso, nunca encontrei prazer em escrever. Creio sempre que estaria          melhor a divertir-me com os meus amigos do que a escrever. Mas quando          não escrevo, sinto uma espécie de doença física, como se me vestisse de          manhã sem ter tomado banho. Então, escrevo... Administro o meu tempo,          cinco a seis horas de trabalho por dia, e depois faço o que apetece.          Quando era adolescente, uma da minha numerosas tias dizia-me: meu filho,          tu não tens ainda idade de viver dos teus defeitos. Hoje, creio que          tenho idade suficiente de viver dos meus defeitos.</span></p>
<p class="MsoNormal" style="text-align:justify;line-height:150%;margin-top:0;margin-bottom:0;">         <span style="font-size:10pt;font-family:Arial,sans-serif;">Escrever          é sempre um desafio. Deveríamos mudar <em>A Bíblia</em>, onde diz: “no          começo era o Verbo”, deveria dizer: “no começo era a depressão”. A nossa          vida é uma espécie de luta contra a depressão, até à depressão final, a          morte. Não procuro dar conselhos, a quem servem os conselhos? Também não          tenho moral. Não sou La Fontaine.</span></p>
<p class="MsoNormal" style="text-align:justify;line-height:150%;margin-top:0;margin-bottom:0;">         <span style="font-size:10pt;font-family:Arial,sans-serif;">Tento dar          o máximo de verosimilhança. É bem verdade que se diga que os livros são          autobiográficos. Isto aprendi com os Americanos: acreditamos que as          coisas chegaram, que elas podem chegar. Recebi uma data de          correspondência de pessoas que me davam conselhos para organizar a minha          vida!</span></p>
<p class="MsoNormal" style="text-align:justify;line-height:150%;margin-top:0;margin-bottom:0;">         <span style="font-size:10pt;font-family:Arial,sans-serif;">Parece-me          que em França o mito do escritor ainda é muito profundo. Creio que ainda          não entenderam aqui que os escritores são homens que mijam como toda a          gente, escrevem livros e é tudo, são seres comuns.</span></p>
<p class="MsoNormal" style="text-align:justify;line-height:150%;margin-top:0;margin-bottom:0;">         <span style="font-size:10pt;font-family:Arial,sans-serif;">No século          XX temos tendência a fabricar mitos para os destruir. Os chefes, por          exemplo, a sua função é serem detestados. Os mitos não servem senão para          serem destruídos. Escritores, médicos, é o mesmo. Lembro-me que quando          era criança, era suficiente que aparecesse o mito para que não me          sentisse mal... Queria dizer: “deixe-me tocar-lhe com o dedo”. Tenho a          impressão de ser uma espécie de Júlio Iglésisas com os seus fãs! É o          lado folclórico da adesão do público e por um lado é bom. Em Portugal,          sempre disse que havia demasiado de Joyce e não bastante de Harold          Robbins. Em Portugal, ser um grande escritor é como significasse não ser          lido. A minha ambição é tocar o máximo de leitores, para lá dos dois          milhões que já tenho.</span></p>
<p class="MsoNormal" style="text-align:justify;line-height:150%;margin-top:0;margin-bottom:0;">         <span style="font-size:10pt;font-family:Arial,sans-serif;">Estou          convencido de que os escritores portugueses estavam afastados do público          por uma linguagem demasiado cara. Era necessário estoirar essa          linguagem. Pensei que ao empregar uma linguagem mais comum poderia          facilmente chegar às pessoas. De facto, aprendi isso com Céline, o          mestre de todos nós. Quando eu tinha 15 anos, o meu pai ofereceu-me os          seus livros dizendo-me: “é um nazi, mas é um escritor revolucionário”.          Descobri que o meu pai tinha razão. Escrevi a Céline para lhe pedir uma          foto com dedicatória. Respondeu-me e correspondemo-nos até à sua morte,          em 1961. Disse-me: “pequeno, se queres ser escritor, é preciso trabalhar          muito”. Assim, permaneci muito ligado a este homem que nunca vi.          Lembro-me das grandes folhas de papel amarelo que ele me enviava. Céline          e os Americanos, as grandes descobertas da minha vida.</span></p>
<p class="MsoNormal" style="text-align:justify;line-height:150%;margin-top:0;margin-bottom:0;">         <strong><span style="font-size:10pt;font-family:Arial,sans-serif;"> </span></strong></p>
<p class="MsoNormal" style="text-align:center;line-height:150%;margin-top:0;margin-bottom:0;" align="center">         <strong><span style="font-size:10pt;font-family:Arial,sans-serif;">         Romance e psiquiatria</span></strong></p>
<p class="MsoNormal" style="text-align:justify;line-height:150%;margin-top:0;margin-bottom:0;">         <span style="font-size:10pt;font-family:Arial,sans-serif;"> </span></p>
<p class="MsoNormal" style="text-align:justify;line-height:150%;margin-top:0;margin-bottom:0;">         <span style="font-size:10pt;font-family:Arial,sans-serif;">Não          queria ser médico. O meu pai é neurologista na Faculdade de Medicina de          Lisboa. Tive que fazer os meus estudos em medicina em protesto. Pensei,          o que se parece mais com Dostoievski? A psiquiatria. Então,          especializei-me em psiquiatria. Mas hoje acabou, já não sou psiquiatra.          Tenho uma posição muito crítica face à psicanálise. Fiz uma análise          freudiana, mas creio que a psicanálise é uma indústria. Foram feitas          pesquisas nos EUA sobre o perfil do psicanalista. Interrogaram-se          milhares e chegou-se à conclusão de que o perfil destes homens era o          seguinte:</span></p>
<p class="MsoNormal" style="text-align:justify;text-indent:36pt;line-height:150%;margin-left:36pt;margin-top:0;margin-bottom:0;">         <span style="font-size:10pt;font-family:Arial,sans-serif;">-          inteligência média</span></p>
<p class="MsoNormal" style="text-align:justify;line-height:150%;margin-top:0;margin-bottom:0;">         <span style="font-size:10pt;font-family:Arial,sans-serif;">                                 - pouca imaginação</span></p>
<p class="MsoNormal" style="text-align:justify;line-height:150%;margin-top:0;margin-bottom:0;">         <span style="font-size:10pt;font-family:Arial,sans-serif;">                                 - grande dificuldade de integração</span></p>
<p class="MsoNormal" style="text-align:justify;line-height:150%;margin-top:0;margin-bottom:0;">         <span style="font-size:10pt;font-family:Arial,sans-serif;">                                 - enorme apetite de poder</span></p>
<p class="MsoNormal" style="text-align:justify;line-height:150%;margin-top:0;margin-bottom:0;">         <span style="font-size:10pt;font-family:Arial,sans-serif;">                                 - voyeurismo.</span></p>
<p class="MsoNormal" style="text-align:justify;line-height:150%;margin-top:0;margin-bottom:0;">         <span style="font-size:10pt;font-family:Arial,sans-serif;">Em          Portugal os psiquiatras são os pilares de uma ordem social que eles          estão obstinados em manter. Para certos psicanalistas americanos, os          operários que se revoltam contra os seus patrões são pessoas que não          resolveram o seu Édipo, é por isso que se revoltam. A ideia inicial de          Freud era muito revolucionária: foi o primeiro a dar atenção ao facto de          as diferenças sociais serem factores de angústia, de depressão. Este          pensamento foi completamente invertido. Escrevi um livro sobre esta          questão, e isso valeu-me aborrecimentos com a Sociedade Internacional de          Psicanálise. Diatkine</span><strong><sup><span style="font-family:Arial,sans-serif;"><font color="#ff5050" size="1">(1)</font></span></sup></strong><span style="font-size:10pt;font-family:Arial,sans-serif;">          veio especialmente de Paris a Portugal para me interrogar, para decidir          se me iriam expulsar da sociedade, que é uma espécie de máfia. Era muito          jovem na época e isso foi muito duro para mim.</span></p>
<p class="MsoNormal" style="text-align:justify;line-height:150%;margin-top:0;margin-bottom:0;">         <span style="font-size:10pt;font-family:Arial,sans-serif;">Nós somos          todos esquizofrénicos. Por exemplo esta sensação de ser observado por          toda gente quando entramos num local público, é uma sensação muito          comum. Não há nada de psicótico nisso. Para criar as minhas personagens,          observo à minha volta... O narrador de <em>Os Cus de Judas</em> era um          neurótico. É uma neurose da guerra que atingiu muitos portugueses. Sei          que muito tempo antes de terem voltado da guerra, metiam-se debaixo da          cama ao menor barulho que se assemelhasse a uma explosão.</span></p>
<p class="MsoNormal" style="text-align:justify;line-height:150%;margin-top:0;margin-bottom:0;">         <span style="font-size:10pt;font-family:Arial,sans-serif;">Creio que          somos muito sós; recorremos a um psicanalista porque estamos sós,          fazemos amor porque estamos sós, e retiramos um grande sentimento da          solidão. Trabalhamos numa sociedade esquizofrénica onde a ideologia é          sempre industrial. Há pouco lugar para o amor ou a afeição. É preciso          ganhar a vida. No final da semana chega o terrível fim-de-semana em que          os casais se olham. Cheios de fantasmas paranóicos a rondar: é por causa          dela; é por causa dele que não sou feliz... Recebo clientes que não          suportam os fins-de-semana, esse face a face terrível porque as pessoas          não sabem viver a dois, a maior parte.</span></p>
<p class="MsoNormal" style="text-align:justify;line-height:150%;margin-top:0;margin-bottom:0;">         <span style="font-size:10pt;font-family:Arial,sans-serif;">Espero          que a solidão não seja absolutamente inevitável. Eu sou como a mãe de          Blondin que lhe dizia muitas vezes; “não tenho fé, mas tenho esperança”.          Encontrei esta fórmula admirável e reutilizei-a num dos meus livros, na         <em>Memória de Elefante</em>, acho eu.</span></p>
<p class="MsoNormal" style="text-align:justify;line-height:150%;margin-top:0;margin-bottom:0;">         <span style="font-size:10pt;font-family:Arial,sans-serif;">Os          homens, quando se encontram, é para discutir política, futebol ou          mulheres, sobre os méritos de uma ou de outra. Fazem uma espécie de          aliança artificial contra a solidão. Freud dizia muitas vezes que o          objectivo da análise deveria ser de poder apreender a realidade, a          angústia da existência sem procurar constantemente escapatórias.          Recentemente, li a autobiografia de Graham Greene de quem gosto muito, e          ele dizia qualquer coisa como: “Não sei como fazem as pessoas que não          escrevem para escapar à loucura, à paranóia, ao suicídio”. Eu creio que,          enquanto escritores, nunca estamos sós.</span></p>
<p class="MsoNormal" style="text-align:justify;line-height:150%;margin-top:0;margin-bottom:0;">         <span style="font-size:10pt;font-family:Arial,sans-serif;"> </span></p>
<p class="MsoNormal" style="text-align:center;line-height:150%;margin-top:0;margin-bottom:0;" align="center">         <strong><span style="font-size:10pt;font-family:Arial,sans-serif;">Sobre         <em>Os Cus de Judas</em></span></strong></p>
<p class="MsoNormal" style="text-align:justify;line-height:150%;margin-top:0;margin-bottom:0;">         <span style="font-size:10pt;font-family:Arial,sans-serif;"> </span></p>
<p class="MsoNormal" style="text-align:justify;line-height:150%;margin-top:0;margin-bottom:0;">         <span style="font-size:10pt;font-family:Arial,sans-serif;">Este          livro faz parte de uma trilogia onde quis abordar três temas          fundamentais para mim: a guerra, a relação entre homens e mulheres e o          universo contraditório dos hospitais psiquiátricos em Portugal,          considerado como um microcosmos representativo do país inteiro. Para <em>         Os Cus de Judas</em>, no princípio pensei na história de uma relação          entre um homem e uma mulher onde não houvesse amor, uma relação onde as          pessoas se separam, se assassinam lentamente porque são egoístas,          narcisistas, etc...</span></p>
<p class="MsoNormal" style="text-align:justify;line-height:150%;margin-top:0;margin-bottom:0;">         <span style="font-size:10pt;font-family:Arial,sans-serif;">Depois          ocorreu-me a ideia de reforçar esta história fazendo um contraponto com          a guerra de Angola. Não é para mim um romance de guerra, é um          contraponto entre duas guerras sangrentas, uma guerra entre um homem e          uma mulher por um lado, e o absurdo da guerra colonial por outro lado. A          mulher tinha duas funções para mim: aquela a quem o homem se destinava,          não tinha um papel concreto – e é assim que se passa na realidade da          sociedade portuguesa e talvez de todo o mundo latino, onde a mulher não          é de certa forma senão um lacaio do homem, onde nos compreendemos tão          pouco, onde estamos tão pouco preparados para nos compreendermos – e por          outro lado, seria um pouco o leitor. Então temos um tipo que fala, fala          que se destina a uma mulher mais ou menos consistente...</span></p>
<p class="MsoNormal" style="text-align:justify;line-height:150%;margin-top:0;margin-bottom:0;">         <span style="font-size:10pt;font-family:Arial,sans-serif;">Por fim,          queria também evocar uma forma muito particular da vida nocturna de          Lisboa que é muito intensa, com os seus bares, as suas discotecas e a          extrema solidão que lá reina. Entra-se num bar, e o que nos assalta          primeiro é a solidão. Uma vez a dona de um bar disse-me; “Ganho dinheiro          com a depressão das pessoas”.</span></p>
<p class="MsoNormal" style="text-align:justify;line-height:150%;margin-top:0;margin-bottom:0;">         <span style="font-size:10pt;font-family:Arial,sans-serif;">O título          do romance tem dois sentidos: o da distância e o da traição. <em>Judas</em>          era a expressão que utilizavam os partidários do MPLA para designar os          portugueses e os que colaboravam com o exército português. Era obrigado          enquanto médico a assistir aos interrogatórios dos prisioneiros pela          PIDE, e era o que diziam os prisioneiros aos agentes da PIDE que eles          queriam insultar. No hospital Miguel Bombarda, onde trabalhava, tínhamos          internado um certo número de presos políticos que também eles usavam          esta expressão <em>Judas</em> sobre nós.</span></p>
<p class="MsoNormal" style="text-align:justify;line-height:150%;margin-top:0;margin-bottom:0;">         <span style="font-size:10pt;font-family:Arial,sans-serif;">Então a          ideia surgiu-me muito naturalmente, quando o meu editor me pediu para          mudar o título que eu lhe propusera pois não lhe parecia muito comercial          (tratava-se da última frase da autobiografia de um poeta do grupo de          Fernando Pessoa que morreu no Miguel Bombarda após 40 anos de          internamento. Encontrei o manuscrito que ele tinha redigido à atenção do          seu médico, e escolhi a última linha para título do meu livro</span><span style="font-size:10pt;font-family:Arial,sans-serif;">).         </span></p>
<p class="MsoNormal" style="text-align:justify;line-height:150%;margin-top:0;margin-bottom:0;">         <span style="font-size:10pt;font-family:Arial,sans-serif;">A guerra          fez-me tomar consciência de coisas que eu ignorava totalmente. Durante          muito tempo vivi numa espécie de redoma. A família - nós vivíamos em          Portugal segundo os costumes da grande família patriarcal de Belém do          Pará, com numerosos filhos – o liceu, a faculdade, Londres – onde          durante cinco anos estudei no hospital onde trabalhou Somerset Maugham –          e depois quando regressei a Portugal fui chamado para a guerra.</span></p>
<p class="MsoNormal" style="text-align:justify;line-height:150%;margin-top:0;margin-bottom:0;">         <span style="font-size:10pt;font-family:Arial,sans-serif;">À época          as classes sociais eram estanques. Nenhum contacto. Estávamos fechados,          o mesmo nível, a mesma cultura, sou mesmo levado a dizer que não era          português. Foi no exército que conheci uma outra relação, vertical e não          horizontal. Em Angola eu era como clínico geral, e quando era preciso          amputar uma perna com uma serra de carpinteiro porque não havia outra          coisa, tornamo-nos forçosamente diferentes.</span></p>
<p class="MsoNormal" style="text-align:justify;line-height:150%;margin-top:0;margin-bottom:0;">         <span style="font-size:10pt;font-family:Arial,sans-serif;">Foi lá          que conheci Melo Antunes, devo-lhe muito, fez-me descobrir muitas          coisas, e permanecemos amigos. É um homem muito corajoso. Um dia, no          Sul, apontou uma pistola a um agente da PIDE e disse-lhe: “se não te          vais embora mato-te”. Antunes foi mudado de unidade, mas os          interrogatórios de prisioneiros pela PIDE foram interrompidos.</span></p>
<p class="MsoNormal" style="text-align:justify;line-height:150%;margin-top:0;margin-bottom:0;">         <span style="font-size:10pt;font-family:Arial,sans-serif;">O          suicídio para mim não é uma obsessão, é um tema que se pode encontrar em          todos os meus romances. Isto não significa que eu me quisesse suicidar,          pelo contrário! Naquela altura preparava uma tese de doutoramento sobre          o suicídio das pessoas jovens. Discutindo com os jovens que tinham          sobrevivido a uma tentativa de suicídio, fui assolado pelo seu          sentimento de imortalidade. O suicídio era sempre o assassínio de          alguém. Assassinavam a parte má. O meu avô, que amava muito,          suicidou-se. Ele tinha um cancro. Deixou uma carta muito clara na qual          dizia que ia matar o seu cancro e que poderia depois viver de boa saúde.          Isto marcou-me muito, tal como o meu contacto de vários anos com jovens          suicidas. Dizemos muitas vezes que é preciso muita coragem para cometer          suicídio. Não acredito nisso. Em <em>Explicação dos Pássaros</em> tentei          contar um suicídio como uma história de circo porque quando era criança          tinha muito medo dos palhaços, faziam-me sempre pensar na morte.</span></p>
<p class="MsoNormal" style="text-align:justify;line-height:150%;margin-top:0;margin-bottom:0;">         <span style="font-size:10pt;font-family:Arial,sans-serif;">As minhas          personagens têm pouca realidade física, para deixar ao leitor a          possibilidade de se identificar com elas e melhor aderir à história.          Perguntaram-me sobre a Teresa, era a dona de uma casa de putas que          existia mesmo no meio da selva, uma preta enorme como as personagens          femininas de Jorge Amado, muito maternal com os soldados e os oficiais.          Ela tinha com ela duas ou três raparigas esfomeadas e era perto delas          que procurávamos um pouco de ternura. Sabem, o amor maternal é uma coisa          da qual tenho pouca experiência. Tive uma infância muito estragada, com          relações familiares muito distantes, a minha mãe nunca me beijou quando          era criança. </span></p>
<p class="MsoNormal" style="text-align:justify;line-height:150%;margin-top:0;margin-bottom:0;">         <span style="font-size:10pt;font-family:Arial,sans-serif;">Os grupos          feministas em Portugal afirmam que os meus livros são repugnantes – os          grupos mais virulentos, claro – e que as mulheres os rejeitam. Eu não          sei, fica ao vosso critério.</span></p>
<p class="MsoNormal" style="text-align:justify;line-height:150%;margin-top:0;margin-bottom:0;">         <span style="font-size:10pt;font-family:Arial,sans-serif;">As          referências culturais abundam nos meus três primeiros romances. Hoje,          penso que é um erro mas que isso fazia parte de uma espécie de ajuste de          contas com a minha infância. Fui educado de uma forma muito especial. O          meu pai metia uma sinfonia e anunciava: “quem não souber o nome desta          sinfonia não sai no domingo”. Ou lia duas ou três páginas de Zola ou de          Flaubert ou de Kipling e depois acrescentava: “quem não conhecer o autor          destas linhas não sai no domingo”. Lembro-me que um dia à mesa ele          perguntou quem era Einstein. A minha mãe respondeu: “acho que é um preto          que toca jazz”. Não sei se ele privou a minha mãe de sair, mas sei que          para nós, seis filhos quase da mesma idade, isso era terrível. Então          vinguei-me nos meus leitores metendo armadilhas destas nos meus livros,          por vezes mesmo frases inteiras sem citar os seus autores. Hoje já não          faço isso.</span></p>
<p class="MsoNormal" style="text-align:justify;line-height:150%;margin-top:0;margin-bottom:0;">         <span style="font-size:10pt;font-family:Arial,sans-serif;">No que          toca a Paul Simon, foi uma época da minha vida. No meu último romance          também há um poema de Simon, mas não no texto. O próximo terá versos de          Bob Dylan. A minha ideia era tirar a literatura do seu gueto          intelectual. Não gosto de intelectuais. Em Portugal têm um uniforme:          barba, óculos, cabelos compridos, não muito limpos, o <em>Le Monde</em>          debaixo do braço. Temos em Portugal uma “classe intelectual”, o que faz          com que tenhamos muitos artistas e poucas obras de arte. Os artistas          enchem os bares, - não as boites, eles não ousam – eles pensam o tempo          todo, não se divertem. Pensei em misturar um pouco tudo isto. Creio que          Paul Simon é um grande compositor, que certas canções dos <em>Beatles</em>          estão ao nível das <em>Lieder</em> de Shubert. Bernstein disse-o e ele é          mais qualificado do que eu. É preciso dessacralizar tudo isto. Os          intelectuais não são intocáveis, pelo contrário...</span></p>
<p class="MsoNormal" style="text-align:justify;text-indent:-18pt;line-height:150%;margin-left:53.45pt;margin-top:0;margin-bottom:0;">&#160;</p>
<p class="MsoNormal" style="text-align:justify;text-indent:-18pt;line-height:150%;margin-left:53.45pt;margin-top:0;margin-bottom:0;">         <span style="font-size:8pt;font-family:Arial,sans-serif;">(1)<span style="font-style:normal;font-variant:normal;font-weight:normal;font-size:7pt;font-family:Times New Roman;">            </span>René Diatkine (1918-1998) foi uma das figuras mais importantes da          psicanálise em França</span></p>
<p class="MsoNormal" style="line-height:150%;margin-top:0;margin-bottom:0;" align="justify">&#160;</p>
<p class="MsoNormal" style="line-height:150%;margin-top:0;margin-bottom:0;" align="justify">         <font face="Arial" size="2"><a href="http://www.ala.nletras.com/entrevista/sppv1983.doc">texto original</a>          por cortesia de Francis Utéza</font></p>
<p class="MsoNormal" style="line-height:150%;margin-top:0;margin-bottom:0;" align="justify">         <font face="Arial" size="2">Novembro de 1983</font></p>
<p class="MsoNormal" style="line-height:150%;margin-top:0;margin-bottom:0;" align="justify">         <font face="Arial">traduzido do francês por          Gonçalo Figueiredo Augusto</font></p>
]]></content:encoded>
</item>
<item>
<title><![CDATA[Que farei quando tudo arde?]]></title>
<link>http://worldroom.wordpress.com/2007/10/01/que-farei-quando-tudo-arde/</link>
<pubDate>Mon, 01 Oct 2007 17:51:01 +0000</pubDate>
<dc:creator>João Monge Ferreira</dc:creator>
<guid>http://worldroom.wordpress.com/2007/10/01/que-farei-quando-tudo-arde/</guid>
<description><![CDATA[
         Não será necessário gastar muitas linhas para apresentar António Lobo Antunes, talvez ]]></description>
<content:encoded><![CDATA[<p class="snap_preview">
<p class="MsoNormal" style="text-align:justify;line-height:150%;margin-top:0;margin-bottom:0;">         <span style="font-size:10pt;font-family:Arial;">Não será necessário gastar muitas linhas para apresentar António Lobo Antunes, talvez apenas dizer que esta entrevista foi o resultado de mais de cinco horas de conversa espalhadas por três tardes, horas bem passadas a falar sobre as coisas pequenas e grandes da vida, sobre a felicidade, loucura, literatura, suicídio, sobre o amor pelas suas três filhas e o desamor pelos pais, sobre o comunismo e a classe politica, sobre a guerra colonial e a amizade. Falámos também de literatura, do que ele gosta e detesta. Do seu último livro, claro. Magnífico <em>Que Farei Quando Tudo          Arde?</em>, romance difícil que a partir de um universo homossexual toca magistralmente a perversa questão da identidade. Identidade daquelas personagens, mas sobretudo a nossa própria identidade. Falou-nos sobre o que anda agora a escrever. Explicou o que lhe acontece quando não escreve, o que lhe acontece quando tira o aparelho contra a surdez do único ouvido que ainda tem alguma sensibilidade, o que lhe acontece quando fecha os olhos e volta à mata de Angola, o que Ihe acontece quando pensa nos seus mortos, o que lhe acontece quando pensa no seu próprio fim.</span></p>
<p class="MsoNormal" style="text-align:justify;line-height:150%;margin-top:0;margin-bottom:0;">         <span style="font-size:10pt;font-family:Arial;"> </span></p>
<p class="MsoNormal" style="text-align:justify;line-height:150%;margin-top:0;margin-bottom:0;">         <span style="font-size:10pt;font-family:Arial;">Aos 59 anos, António Lobo Antunes publicou 15 romances traduzidos em dezenas e dezenas de países. Todos os anos o seu nome é falado para o Nobel da Literatura. Todos os anos aumentam as vendas e os seus admiradores. Diz-se que Mario Vargas Llosa tem a sua fotografia no escritório.</span></p>
<p class="MsoNormal" style="text-align:justify;line-height:150%;margin-top:0;margin-bottom:0;">         <span style="font-size:10pt;font-family:Arial;"> </span></p>
<p class="MsoNormal" style="text-align:justify;line-height:150%;margin-top:0;margin-bottom:0;">         <span style="font-size:10pt;font-family:Arial;">Foram três tardes. Ao Augusto Brázio, que lhe mostrou imagens, leu poesia. A mim, deu-me conselhos para a vida. Esperemos que fique a conhecer mais o homem do que o escritor, mais o que tem dentro do que as máscaras que utiliza para disfarçar a timidez, mais a inquietude do que a arrogância do personagem. Esta é uma entrevista com um homem que continua à procura de um sentido para a vida, um homem igual a tantos outros. Talvez mais próximo da genialidade do que a larguíssima maioria, mas também muito mais perto do sofrimento.</span></p>
<p class="MsoNormal" style="text-align:justify;line-height:150%;margin-top:0;margin-bottom:0;">         <span style="font-size:10pt;font-family:Arial;"> </span></p>
<p class="MsoNormal" style="text-align:justify;line-height:150%;margin-top:0;margin-bottom:0;">         <span style="font-size:10pt;font-family:Arial;"> </span></p>
<p class="MsoNormal" style="text-align:justify;line-height:150%;margin-top:0;margin-bottom:0;">         <strong><span style="font-size:10pt;font-family:Arial;">Vou ligar o          gravador para depois, com o tempo, nos podermos esquecer dele.</span></strong></p>
<p class="MsoNormal" style="text-align:justify;line-height:150%;margin-top:0;margin-bottom:0;">         <font color="#000080">         <span style="font-size:10pt;font-family:Arial;">Está bem. Falávamos de desamparo, de solidão, da minha solidão e do meu desamparo. Sempre tive uma vida muito sozinha, isso defende-me um bocado. É claro que aos 18 anos achava que sabia tudo sobre a literatura e sobre a vida, com os anos percebi que não sei absolutamente nada. Escrevo cada vez mais, escrevo quase compulsivamente… Agora, mesmo antes de chegar, estava para ali às voltas com a imortalidade.</span></font></p>
<p class="MsoNormal" style="text-align:justify;line-height:150%;margin-top:0;margin-bottom:0;">         <span style="font-size:10pt;font-family:Arial;"> </span></p>
<p class="MsoNormal" style="text-align:justify;line-height:150%;margin-top:0;margin-bottom:0;">         <strong><span style="font-size:10pt;font-family:Arial;">Com a sua          imortalidade?</span></strong></p>
<p class="MsoNormal" style="text-align:justify;line-height:150%;margin-top:0;margin-bottom:0;">         <font color="#000080">         <span style="font-size:10pt;font-family:Arial;">Com a minha não, com a minha não. Às vezes, muitas vezes, sinto que devia aprender a não escrever, espero que isso me seja possível. O intervalo entre os livros é cada vez mais difícil de suportar, são intervalos muito penosos. E claro que as pessoas são muito gentis comigo, ainda agora em Espanha a recepção que me fizeram foi impressionante e comovente. Tanta gente, tanta gente… Uma pessoa fica aflita com tanta generosidade, fica aflita quando de repente pessoas que não conheço e que falam uma língua diferente da minha me pedem para continuar a escrever, para não parar.</span></font></p>
<p class="MsoNormal" style="text-align:justify;line-height:150%;margin-top:0;margin-bottom:0;">         <span style="font-size:10pt;font-family:Arial;"> </span></p>
<p class="MsoNormal" style="text-align:justify;line-height:150%;margin-top:0;margin-bottom:0;">         <strong><span style="font-size:10pt;font-family:Arial;">Tem mesmo a          intenção de parar?</span></strong></p>
<p class="MsoNormal" style="text-align:justify;line-height:150%;margin-top:0;margin-bottom:0;">         <font color="#000080">         <span style="font-size:10pt;font-family:Arial;">Escrever mais dois livros e parar. É a minha ideia. Não concebo viver sem escrever, mas julgo que romances não escreverei mais. A maioria dos escritores, a dada altura, limita-se a apodrecer, esse apodrecimento acaba por pôr tudo o que fizeram antes em causa. Por vezes, sinto-me a rapar o tacho e não quero que isso aconteça. Porventura tenho que aprender a não escrever para descobrir múltiplas outras coisas, descobrir coisas que me apeteçam fazer.</span></font></p>
<p class="MsoNormal" style="text-align:justify;line-height:150%;margin-top:0;margin-bottom:0;">         <span style="font-size:10pt;font-family:Arial;"> </span></p>
<p class="MsoNormal" style="text-align:justify;line-height:150%;margin-top:0;margin-bottom:0;">         <strong><span style="font-size:10pt;font-family:Arial;">O que Ihe          apetecia fazer agora?</span></strong></p>
<p class="MsoNormal" style="text-align:justify;line-height:150%;margin-top:0;margin-bottom:0;">         <font color="#000080">         <span style="font-size:10pt;font-family:Arial;">Ir a um quiosque comprar um livro policial. Depois talvez me sentasse numa paragem de autocarros suburbana, naquelas paragens em que param os autocarros que seguem para Lisboa… Sim, apetecia-me ficar para ali sentado. As pessoas entram, as pessoas saem e vou-me abandonando. Gosto dessa sensação. Todos os dias fico meia-hora na casa de banho sem fazer coisa nenhuma. Não tomo banho, não me barbeio, simplesmente estou sentado, mais nada. Os pensamentos não são claros, mas tenho a sensação que programo o resto do dia nessa meia-hora em que olho o tecto e as paredes.</span></font></p>
<p class="MsoNormal" style="text-align:justify;line-height:150%;margin-top:0;margin-bottom:0;">         <span style="font-size:10pt;font-family:Arial;"> </span></p>
<p class="MsoNormal" style="text-align:justify;line-height:150%;margin-top:0;margin-bottom:0;">         <strong><span style="font-size:10pt;font-family:Arial;">Já não exerce a psiquiatria a tempo inteiro, mas continua a ir duas vezes por semana ao Hospital Miguel Bombarda. Para manter contacto com a realidade?</span></strong></p>
<p class="MsoNormal" style="text-align:justify;line-height:150%;margin-top:0;margin-bottom:0;">         <font color="#000080">         <span style="font-size:10pt;font-family:Arial;">Não, não. Ainda sigo          alguns doentes e isso dá-me muito prazer.</span></font></p>
<p class="MsoNormal" style="text-align:justify;line-height:150%;margin-top:0;margin-bottom:0;">         <span style="font-size:10pt;font-family:Arial;"> </span></p>
<p class="MsoNormal" style="text-align:justify;line-height:150%;margin-top:0;margin-bottom:0;">         <strong><span style="font-size:10pt;font-family:Arial;">Que tipo de          prazer?</span></strong></p>
<p class="MsoNormal" style="text-align:justify;line-height:150%;margin-top:0;margin-bottom:0;">         <font color="#000080">         <span style="font-size:10pt;font-family:Arial;">O de ser imediatamente útil. Sabe que no hospital tive a maior lição sobre o que era viver, a maior de todas as lições. Um doente disse-me assim: «Sabe doutor, o mundo foi feito por trás». Na altura não liguei, mas hoje acho uma ideia espantosa. Na literatura e fora dela. Temos de escrever por trás para não estarem visíveis os pregos e as costuras, isso talvez seja o mais difícil porque é grande a tentação de mostrar tudo pela frente. Julgam, e também eu já o julguei, que assim as suas habilidades ficam à mostra, normalmente não percebem que é o leitor que constrói o romance. Sim, no hospital sinto-me útil. Na escrita a utilidade é uma dúvida permanente.</span></font></p>
<p class="MsoNormal" style="text-align:justify;line-height:150%;margin-top:0;margin-bottom:0;">         <span style="font-size:10pt;font-family:Arial;"> </span></p>
<p class="MsoNormal" style="text-align:justify;line-height:150%;margin-top:0;margin-bottom:0;">         <strong><span style="font-size:10pt;font-family:Arial;">As dúvidas,          quando são muitas, podem levar-nos ao hospital onde se continua a sentir          útil.</span></strong></p>
<p class="MsoNormal" style="text-align:justify;line-height:150%;margin-top:0;margin-bottom:0;">         <font color="#000080">         <span style="font-size:10pt;font-family:Arial;">A loucura varia muito. De norma para norma, de cultura para cultura. Aquilo a que os médicos chamam loucura não é mais do que algumas coisas que existem dentro de nós mais desenvolvidas. Por exemplo: o que é a timidez?</span></font></p>
<p class="MsoNormal" style="text-align:justify;line-height:150%;margin-top:0;margin-bottom:0;">         <span style="font-size:10pt;font-family:Arial;"> </span></p>
<p class="MsoNormal" style="text-align:justify;line-height:150%;margin-top:0;margin-bottom:0;">         <strong><span style="font-size:10pt;font-family:Arial;">É o medo de          sermos rejeitados pelo outro.</span></strong></p>
<p class="MsoNormal" style="text-align:justify;line-height:150%;margin-top:0;margin-bottom:0;">         <font color="#000080">         <span style="font-size:10pt;font-family:Arial;">A timidez é a sensação de que estamos a ser olhados e que estão a reparar em nós. Num grau mais elevado deixa de ser timidez e passa a auto-relacionação, um dos sintomas da esquizofrenia. Todos os sintomas das doenças mentais acabam por não ser mais do que coisas comuns amplificadas, os médicos criam a norma clínica e consideram em alguns casos que determinados sintomas são desviantes da norma clínica que eles próprios criaram. Se estiver excepcionalmente bem disposto corre o risco de o rotularem com uma qualquer doença e dão-Ihe remédios para atenuar essa sua boa disposição.</span></font></p>
<p class="MsoNormal" style="text-align:justify;line-height:150%;margin-top:0;margin-bottom:0;">         <span style="font-size:10pt;font-family:Arial;"> </span></p>
<p class="MsoNormal" style="text-align:justify;line-height:150%;margin-top:0;margin-bottom:0;">         <strong><span style="font-size:10pt;font-family:Arial;">A loucura varia          então de médico para médico.</span></strong></p>
<p class="MsoNormal" style="text-align:justify;line-height:150%;margin-top:0;margin-bottom:0;">         <font color="#000080">         <span style="font-size:10pt;font-family:Arial;">Julgo que sim. A loucura é exceder os limites impostos pelos médicos, limites que variam muito de caso para caso. O meu amigo Daniel Sampaio tem um patamar de tolerância muito maior do que a maioria, nunca o ouvi usar o termo normalidade. Mas a minha experiência clínica é diminuta, nunca quis ser psiquiatra nem tirar o curso de medicina, sempre quis escrever. Perguntam-me na maior parte das entrevistas se me inquieta a loucura, seria muito mais interessante perguntarem-me se me inquieto com o tempo que tenho à frente… Por um lado a única coisa que temos é o tempo, mas por outro cria-me uma espécie de angústia que tento preencher trabalhando. Talvez seja a razão porque trabalho tantas horas: fintar a angústia crescente.</span></font></p>
<p class="MsoNormal" style="text-align:justify;line-height:150%;margin-top:0;margin-bottom:0;">         <span style="font-size:10pt;font-family:Arial;"> </span></p>
<p class="MsoNormal" style="text-align:justify;line-height:150%;margin-top:0;margin-bottom:0;">         <strong><span style="font-size:10pt;font-family:Arial;">É por isso que as          pausas entre livros são penosas.</span></strong></p>
<p class="MsoNormal" style="text-align:justify;line-height:150%;margin-top:0;margin-bottom:0;">         <font color="#000080">         <span style="font-size:10pt;font-family:Arial;">Sinto-me infiel e culpado quando não escrevo, não sei em relação a quê ou a quem. Nestes últimos dias passados fora de casa estive sempre a roubar tempo para voltar ao quarto do hotel… Eram recepções, homenagens, conferências de imprensa, sessões de autógrafos e eu sempre a pensar no momento em que o elevador me levaria de volta à minha solidão, mais nada.</span></font></p>
<p class="MsoNormal" style="text-align:justify;line-height:150%;margin-top:0;margin-bottom:0;">         <span style="font-size:10pt;font-family:Arial;"> </span></p>
<p class="MsoNormal" style="text-align:justify;line-height:150%;margin-top:0;margin-bottom:0;">         <strong><span style="font-size:10pt;font-family:Arial;">Mas nunca lhe          apetece fazer outras coisas?</span></strong></p>
<p class="MsoNormal" style="text-align:justify;line-height:150%;margin-top:0;margin-bottom:0;">         <font color="#000080">         <span style="font-size:10pt;font-family:Arial;">Apetece-me sempre fazer outras coisas, mas isto tornou-se uma obsessão. A minha vida faz pouco sentido fora da literatura… Creio que é um pouco assim em relação à maioria das pessoas, o trabalho é a única forma de realização possível. Tudo o resto é secundário em relação ao trabalho, mesmo a actividade sexual.</span></font></p>
<p class="MsoNormal" style="text-align:justify;line-height:150%;margin-top:0;margin-bottom:0;">         <span style="font-size:10pt;font-family:Arial;"> </span></p>
<p class="MsoNormal" style="text-align:justify;line-height:150%;margin-top:0;margin-bottom:0;">         <strong><span style="font-size:10pt;font-family:Arial;">E onde coloca o          afecto?</span></strong></p>
<p class="MsoNormal" style="text-align:justify;line-height:150%;margin-top:0;margin-bottom:0;">         <font color="#000080">         <span style="font-size:10pt;font-family:Arial;">Sou uma pessoa muito reservada. Não falo da minha vida privada e dos meus sentimentos, mas não é por ter escolhido ser assim, entristece-me tanto ser assim. Sou assim por causa da educação que tive e pelos problemas que tenho em manifestar afectos, problemas meus. Não falo muito destas coisas nas entrevistas, porque tenho receio da forma como é tratado o jogo entre as perguntas do entrevistador e as minhas respostas. Uma boa entrevista é sempre uma peça de ficção, o jornalista cria uma personagem que é o entrevistado, talvez hoje possamos ir por aí. Mas hoje quase tudo é ficção, as próprias editoras entraram por aí. Com a pressa de vender livros à força publicitam essas meninas todas que por aí andam a escrever e os jornais misturam os que têm qualidade com o que é reles. Essas meninas, esses livros, são reles. Assim como algumas más entrevistas.</span></font></p>
<p class="MsoNormal" style="text-align:justify;line-height:150%;margin-top:0;margin-bottom:0;">         <strong><span style="font-size:10pt;font-family:Arial;"> </span></strong></p>
<p class="MsoNormal" style="text-align:justify;line-height:150%;margin-top:0;margin-bottom:0;">         <strong><span style="font-size:10pt;font-family:Arial;">É comum dizer-se que António Lobo Antunes é arrogante e vaidoso. O traço da personagem não corresponde à forma como olha.</span></strong></p>
<p class="MsoNormal" style="text-align:justify;line-height:150%;margin-top:0;margin-bottom:0;">         <font color="#000080">         <span style="font-size:10pt;font-family:Arial;">As pessoas criaram uma ficção e agora é difícil esbater essa ideia. Durante anos, mesmo em relação a jornalistas, tentaram à força colar-me a imagem que imaginavam que eu fosse, ainda agora. Na sessão de autógrafos do lançamento deste livro escreveram-se coisas que eu não<em> </em>disse, coisas totalmente          fantasiosas.</span></font></p>
<p class="MsoNormal" style="text-align:justify;line-height:150%;margin-top:0;margin-bottom:0;">         <span style="font-size:10pt;font-family:Arial;"> </span></p>
<p class="MsoNormal" style="text-align:justify;line-height:150%;margin-top:0;margin-bottom:0;">         <span style="font-size:10pt;font-family:Arial;"> </span></p>
<p class="MsoNormal" style="text-align:justify;line-height:150%;margin-top:0;margin-bottom:0;">         <strong><span style="font-size:10pt;font-family:Arial;">Quando se faz um          pacto com a fama paga-se sempre um preço.</span></strong></p>
<p class="MsoNormal" style="text-align:justify;line-height:150%;margin-top:0;mar